segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Toponímia Romana em Portugal

 A influência romana sobre o território que actualmente conhecemos como Portugal foi profunda e deixou marcas de Norte a Sul do país. Na imagem pode ver-se um pavimento de mosaico nas ruínas romanas de Milreu em Estoi no distrito de Faro. As Ruínas romanas de Milreu que também são conhecidas como as Ruínas de Estoi, são um importante vestígio da época romana.


Na história da Toponímia em Portugal, nunca pode ser descurada a influência que a conquista da Península Ibérica pelos Romanos nos inícios do século III a.C. veio a exercer sobre a toponímia Ibérica e Portuguesa. Na realidade os Romanos entraram no território que actualmente designamos como Portugal, logo no século II a.C. e depararam-se durante bastante tempo com uma forte resistência por parte dos povos autóctones da península Ibérica.[1]

A romanização da Península Ibérica veio a afectar muitas áreas da vida dos seus habitantes, incluindo naturalmente a linguagem. O latim, acima de tudo a sua versão popular, o latim vulgar, foi difundido por soldados, colonos e mercadores que vinham de várias províncias e colónias romanas e acabaram por criar novas cidades próximo de cidades nativas já existentes.

A utilização de idiomas pré-romanos começou gradualmente a decrescer devido a vários factores. O primeiro destes terá sido o bilinguismo, inicialmente toda a Península Ibérica era falante de idiomas pré-romanos, no entanto, o tempo acabou por ditar que gradualmente estes idiomas fossem tendo a sua utilização reduzida, até que ficaram confinados a zonas isoladas da Ibéria.

Actualmente supõe-se que o contacto do Latim Vulgar com as línguas pré-romanas nativas à Península Ibérica, acabaram por dar origem à formação de diferentes dialectos. Estes dialectos por sua vez terão divergido ao longo do tempo, acabando por evoluir para as primeiras línguas românicas da Península Ibérica, entre elas o galaico-português. O processo de diferenciação das línguas ibérico-românicas terá ocorrido ainda no tempo Romano e provavelmente é responsável por ter dado origem a diversos traços individuais nas línguas em questão.[2]

Os especialistas acreditam que por volta do ano 600 já não era falado o latim vulgar na Península Ibérica. Mas é amplamente aceitado que o latim vulgar teve um papel muito importante na origem de todas as línguas românicas, tendo contribuído com quase 90% do léxico para a Língua Portuguesa.

O grande contributo em termos de toponímia que os Romanos deixaram a Portugal e à Europa romanizada, em larga medida deveu-se ao hábito que os Romanos tinham de mapear e dar nomes às terras por si conquistadas. Por este motivo,  a expansão do Império Romano foi sempre acompanhada de uma igual expansão da sua rede de Topónimos.[3] 

Infelizmente, o passar do tempo acabou por inevitavelmente apagar muitos destes Topónimos da época Romana e mesmo até da época pré-romana, no entanto, a falta de conhecimento que existe hoje sobre esta área, em parte deve-se à falta de mais esforços no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre a Toponímia pré-Romana e Romana.

A implantação Romana na península Ibérica ficou caracterizada pela entrada em vigor de uma nova organização territorial que basicamente veio dividir a Península Ibérica em três províncias subservientes a Roma: a Baetica, a Lusitânia (que correspondia a uma parte significativa do território que actualmente constitui Portugal) e a Tarraconensis.[4]

Durante a época em que o território actualmente português fez parte do Império Romano, foram criadas muitas cidades que ainda hoje existem e florescem. Porém, os Romanos também levaram a cabo uma expansão de cidades que já existiam na Península Ibérica anteriormente à sua chegada.

A política de ordenamento territorial levada a cabo pelo Império Romano na península Ibérica deu origem a importantes aglomerados urbanos e rurais que foram ligados entre si por uma vasta rede viária. Alias, convém salientar, que a criação desta rede viária (um dos maiores símbolos e orgulhos da civilização Romana) também deu origem simultaneamente a uma necessidade de criar novos topónimos para aplicar tanto aos caminhos abertos pelos Romanos, como aos novos aglomerados habitacionais servidos por estas estradas sem paralelo na sua época. 

A rede viária Romana foi, aliás, sem dúvida um dos principais motivos pela relativa estabilidade económico-social vivida na península Ibérica durante a ocupação Romana e a densidade da mesma pode ser atestada pela significativa quantidade de vestígios arqueológicos existentes em muitas cidades portuguesas e em outras que hoje se encontram abandonadas, mas que na época do Império Romano constituíam importantes aglomerados habitacionais como foi o caso de Conimbriga e Mirobriga em Santiago do Cacém.

Algumas das cidades criadas pelos romanos, começaram a sua existência como villas romanas, com um senhor romano e peninsulares que ali se fixavam para trabalhar para os senhores romanos. Inicialmente, o regime que vigorava na Ibéria ocupada era o colonial, no entanto, mais tarde, os Ibero-Romanos das cidades ganharam o direito latino passando assim a serem considerados cidadãos de Roma com plenos direitos jurídicos.

As villae constituíam complexos habitacionais que estavam ligados à exploração de vários recursos existentes um pouco por todo o Império Romano. Em Portugal, exemplos destas villae são Mileu (Guarda), Pisões (Beja), São Cucufate (Vidigueira) e Fonte do Milho (Régua). De acordo com H. Lautensach, o nome do proprietário da villa pode ter estado na origem de alguns topónimos como Villa Corneliana que seria Correlhã, Villa Laurentiana corresponderia à Lourinhã e Villa Aurentina a Ourentã. No caso português pode-se dizer que uma parte muito significativa dos topónimos da época Romana foram já localizados, algo que é fundamental para que se possa compreender as raízes mais profundas de muitos topónimos em Portugal.[5]

O quadro seguinte apresenta alguns exemplos de Topónimos usados durante a época Romana no território que actualmente constitui Portugal continental e os Topónimos actualmente correspondentes:



Topónimo Romano
Topónimo Português
Salacia
Alcácer do Sal
Vipasca
Aljustrel
Abelterium
Alter do Chão
Pax Iulia
Beja
Bracara Augusta
Braga
Aquae Flaviae
Chaves
Aeminium
Coimbra
Ebora
Évora
Ossonoba
Faro
Tongobriga
Freixo (Marco de Canaveses)
Igaeditani
Idanha-a-Velha
Olisipo
Lisboa
Myrtilis
Mértola
Cale
Porto?
Scallabis
Santarém
Caetobriga
Setúbal
Sellium
Tomar




Notas:
[1] GRANDE ENCICLOPÉDIA UNIVERSAL, Toponímia, Edita Durclube, 2004, pág: 12879.
[2] PIEL, JOSEPH-MARIA, Origens e Estruturação Histórica do Léxico Português, Estudos de Linguística Histórica Galego-Portuguesa, Lisboa, 1989, pág: 9-16.
[3] GOD’S GUARANTEES FOR GIVING!, Toponymy, http://godsguarantees.com/toponymy, (data da última consulta: 04/05/2011).
[4] GRANDE ENCICLOPÉDIA UNIVERSAL, Toponímia, Edita Durclube, 2004, pág: 12879.
[5] GRANDE ENCICLOPÉDIA UNIVERSAL, Toponímia, Edita Durclube, 2004, pág: 12879 – 12880.


João José Horta Nobre
Setembro de 2011


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