sábado, 19 de maio de 2012

O Pensamento de Teixeira de Pascoaes em "O Génio Português Na Sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa"


 Para Teixeira de Pascoaes, o génio lusíada é essencialmente um criador e por isso, o mais belo representante do espírito humano em acção poética a "dilatar a obra de Deus".


A alma lusíada é no filósofo a matéria e o espírito, misturando-se harmoniosamente, em uma constante actividade criadora de novas formas de vida, eternamente originais.[1]

Para Pascoaes o homem educado fora da sua raça não a conhece e portanto não a pode amar.[2] Despertar na mocidade o génio nacional através do ensinamento dos poetas, escritores e artistas representativos da língua, das lendas, da paisagem e da história de Portugal é o primeiro dever dos educadores. O autor considerava mesmo que não conhecia "pior erro do que esse de cultivar num povo qualidades estranhas que lhe não pertencem por natureza".[3]

O indivíduo desnacionalizado perde a sua presença viva, dilui-se num fantasma inerte. O assim chamado "génio aventureiro" dos portugueses que hoje muitos desprezam, assim como o "temperamento messiânico" que ainda é mais desprezado, são as duas grandes qualidade que Pascoaes atribuiu ao povo português.[4]

Teixeira de Pascoaes considerava que aqueles que julgam o sentimento de amor à Pátria como sendo inimigo do progresso moral da Humanidade, das modernas ideias de justiça social, etc… são pessoas que desconhecem por completo a "natureza humana".[5]

A justiça social, para Pascoaes só poderia realizar-se dentro de cada Pátria. Pois querer criar uma justiça comum para toda a Humanidade é um sonho chimérico; equivale a pedir um rosto igual para todos os homens. Algo que Pascoaes eufemísticamente descreve como um puro "absurdo"![6]
 
As pátrias diferem «por natureza» umas das outras, assim como os indivíduos. Elas resultam da união, por parentesco de sangue de um certo número de indivíduos num determinado território.[7] O amor à Pátria é por isso a própria saúde moral de um povo: "o sinal de que vive".[8]

Pascoaes considerava que numa nação ainda atrasada como era Portugal, seria patriótico chamar a atenção de um povo para a sua alma revelada a fim de que ela encontre em si própria, uma luz guiadora dos seus actos e a energia que os provoque e lhes garanta sucesso.[9]

Dar à Pátria portuguesa a consciência do seu ser espiritual é dar mais relevo, nitidez e vida à sua presença entre as outras nações e prepará-la sobretudo para o cumprimento de um alto destino.[10]

A renascença italiana opõe para Pascoaes o génio português à sua criação da «Saudade». A renascença italiana foi criada, exteriormente por alguns artistas geniais e a saudade concebeu-se por sua vez no íntimo espiritual de uma raça.[11]
 
O poeta português é um interprete da sua raça em ascensão divina; o estrangeiro é o interprete de este ou aquele livro de filosofia.[12] O "saudosismo panteísta", revelador e criador dos aspectos viventes e misteriosos da criação, é escultural na sua essência.[13]

O génio lusíada é essencialmente um criador e por isso, o mais belo representante do espírito humano em acção poética a "dilatar a obra de Deus".[14]

A palavra "medo" na língua portuguesa encerra um sentido profundo, não materialista, mas anímico. Ela significa o primeiro estremecimento do homem perante a presença inesperada de Deus ainda envolto em névoas misteriosas…[15] O "medo" é portanto uma coisa sagrada.[16]

O homem gera constantemente vida espiritual, assim como a terra gera vida vegetal.[17] Pascoaes destaca que: "quando esta vida psíquica se tornar interpretativa das imperfeitas vidas anteriores e com elas se casar, construindo um universo ideal dentro da realidade do universo, teremos a verdadeira religião saudosista".[18]

Pascoaes considerava que o povo português deu sempre uma feição própria ao Cristianismo e só pela força das circunstâncias politicas e da vontade dos reis se sujeitou à igreja romana. Para Pascoaes, a república deveria de resolver a questão religiosa reconstituindo a nossa igreja e dotando-a de um clero esclarecido e virtuoso, restituindo-lhe então todos os seus bens.[19]

O povo acredita em Deus, mas não se importa com o Papa, nem com os Bispos. O «Saudosismo» é um novo credo religioso que não responde apenas à ansiedade mística da alma lusíada, mas a muito mais.[20]

Pascoaes sentia que na realidade, o espírito humano está desejoso de se libertar do cárcere estreito, escuro e asfixiante em que o materialismo o enclausurou. Ele acreditava que as forças que iriam operar a próxima grande transformação do mundo seriam as forças religiosas de natureza espiritual, talvez até mesmo reencarnadas num novo Cristo.[21]

É necessário que o poder mudando de mãos se transcendentalize. A Humanidade nada poderá lucrar se a justiça mudar apenas de local passando do primeiro andar para o rés do chão. É essencial que a justiça exista em todos os andares. Pascoaes ía ao ponto de afirmar que para ele "o renascimento religioso é inegável". "Estamos à beira de uma nova era". "É o reino saudosista que se anuncia"…[22]


Notas:

[1] PASCOAES, Teixeira de, O Génio Português na Sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa, Renascença Portuguesa, Porto, 1913, pág: 8.
[2] IDEM, op. cit, pág: 9.
[3] IDEM, op. cit, pág: 10.
[4] IDEM, op. cit, pág: 10.
[5] IDEM, op. cit, pág: 11.
[6] IDEM, op. cit, pág: 11.
[7] IDEM, op. cit, pág: 12.
[8] IDEM, op. cit, pág: 12.
[9] IDEM, op. cit, pág: 13.
[10] IDEM, op. cit, pág: 13.
[11] IDEM, op. cit, pág: 19.
[12] IDEM, op. cit, pág: 20.
[13] IDEM, op. cit, pág: 27.
[14] IDEM, op. cit, pág: 29.
[15] IDEM, op. cit, pág: 31.
[16] IDEM, op. cit, pág: 31.
[17] IDEM, op. cit, pág: 37.
[18] IDEM, op. cit, pág: 38.
[19] IDEM, op. cit, pág: 43.
[20] IDEM, op. cit, pág: 44.
[21] IDEM, op. cit, pág: 47.
[22] IDEM, op. cit, pág: 47-48.



Este artigo foi publicado no "Correio do Porto" a 27 de Maio de 2012:  

http://www.correiodoporto.com/cultura/teixeira-de-pascoaes





JJHN
Janeiro de 2012




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