sábado, 18 de maio de 2013

AK-47: A Arma Que Revolucionou a Guerra Contemporânea

Uma AK-47 de Tipo 2 a primeira variação com uma caixa de culatra maquinada.


“Para que um soldado ame a sua arma, ele deve compreendê-la e saber que ela não o trairá.” - Sargento Mikhail Kalashnikov

A AK-47 é uma das armas mais carismáticas da segunda metade do século XX, aliás, muito provávelmente será até a arma mais exibida de todos os tempos nos media e a que já colheu mais vidas. Constitui um fácilmente reconhecível símbolo da Guerra Fria e participou em praticamente todos os conflitos bélicos desde meados do século XX até aos dias actuais. Considerada por muitos como sendo um símbolo de guerrilheiros rebeldes e violentos que marcaram o século passado como Che Guevara e Yasser Arafat, a AK-47 é também vista como sendo um símbolo do mal e representativa de ditadores sanguinários como Muammar Gaddafi ou Saddam Hussein que chegou até a possuir uma AK-47 coberta de ouro.

Se há uma arma que pode definir os conflitos militares típicos da Guerra Fria, essa arma é sem dúvida a AK-47 cuja imagem transmite hoje um simbolismo de resistência anti-imperialista e revolucionária que é inegável em todos os aspectos, aliás, esse poder de imagem é tal que a AK-47 actualmente é uma imagem presente até na bandeira de Moçambique, algo inédito para uma arma do século XX. Em todos os aspectos, a AK-47 é muito mais do que apenas uma mera espingarda automática, ela é também um ícone da cultura pop e uma peça apreciadíssima por coleccionadores de armas em todo o mundo.
     
A AK-47 tem estado presente em toda a espécie de insurreições de carácter militar e infelizmente tem tido um papel infame e triste em inúmeros massacres além de ser a arma de eleição por parte de organizações criminosas em todo o mundo. Pode-se hoje afirmar sem dúvida absolutamente nenhuma que a AK-47 foi um verdadeiro instrumento de morte no século passado e contínua a ser ainda hoje a arma preferida de muitos movimentos de guerrilha como os Talibã no Afeganistão.
  
Criada em 1947, como resultado de um concurso secreto, os componentes que constituem esta espingarda automática são simples e duráveis, porém, inicialmente a AK-47 não foi levada a sério e muitos troçaram da mesmo devido ao facto de o seu cano ser demasiado curto para conseguir atingir a mesma precisão e alcance de tiro das espingardas utilizadas pela maior parte dos soldados de infantaria das décadas de 1940-1950 e por isso mesmo a primeira vez que o Pentágono finalmente conseguiu arranjar alguns exemplares desta arma nos anos 1950, os oficiais estado-unidenses não a levaram minimamente a sério.

Na realidade esta modesta e simples arma Soviética, cujo verdadeiro nome é Avtomat Kalashnikova-47, iria constituir para os soldados estado-unidenses, dentro de pouco mais de uma década, um verdadeiro terror nas florestas do Vietname, chegando ao ponto de haver soldados que preferiam trocar a sua M16 por uma AK-47 que conseguissem capturar ao inimigo.
  
A AK-47 constitui para qualquer historiador militar do século XX minimamente bem informado uma pedra angular na história da guerra do último meio século. O sucesso da AK-47 foi tanto que o próprio Estado Soviético nunca julgou que a mesma pudesse transcender as suas fronteiras de uma forma tão rápida, a explicação para este fenómeno em parte reside no facto de a AK-47 constituir um meio para indivíduos e pequenos grupos armados poderem ter um grau de poder de fogo que anteriormente à sua invenção e disseminação pelo mundo, pertencia apenas a exércitos rigidamente organizados e bem financiados.


Sem dúvida que a AK-47 não foi uma arma perfeita em todos os aspectos, pois carece de precisão de tiro e o seu alcance eficaz de tiro também não é dos melhores, porém, a sua facilidade de utilização, baixo custo, fiabilidade e alta disponibilidade de munições e peças no mercado internacional, fizeram dela a melhor opção para inúmeros grupos rebeldes.

A AK-47 é sob todos os aspectos uma arma tão fácil de manusear que até uma criança sem qualquer tipo de treino específico e analfabeta pode fácilmente aprender a operar uma em muito pouco tempo, daí que não seja de admirar a facilidade com que se enviaram milhares de crianças-soldado para o campo de batalha durante a segunda metade do século XX equipadas com esta espingarda automática que nas mãos erradas pode originar pesados danos.                                                                     
  
O sucesso da AK-47 deve-se à vontade do governo Soviético que decidiu apostar na produção em massa desta arma, a facilidade e rapidez do processo de fabrico da mesma, levou a que nos anos 1950 o Kremlin decidisse permitir a utilização da AK-47 a estados aliados a si e ordenou aos seus vassalos do Pacto de Varsóvia que a produzissem em massa.


É assim que chegados à década de 1960, as fábricas de armamento das economias planificadas do Bloco de Leste estavam a produzir a AK-47 a um ritmo tão elevado que os governos Comunistas destes estados distribuíam e armazenavam esta arma às dezenas de milhões. Não tinha importância neste processo de produção o facto de muitas das armas nem sequer terem destino certo, pois estava-se a produzir muito acima do que era necessário. Esta sobre-produção em massa da AK-47, aliada à falta de segurança e corrupção galopante em muitos depósitos militares do mundo comunista, levou a que nas décadas de 1970 e 1980 a arma estivesse disponível a combatentes de praticamente qualquer causa. A AK-47 tanto podia ser encontrada nas mãos de uma guerrilha marxista, como nas mãos de uma guerrilha ultra-nacionalista. Concebida para ajudar a proteger e defender o ideal comunista, a AK-47 acabou por transcender de forma total esta ideologia e passou a estar disponível no inventário militar de qualquer grupo ou organização que tivesse dinheiro para a adquirir, independentemente da ideologia ou objectivos do respectivo grupo.

Porém, a situação tornou-se muito mais grave após o colapso da União Soviética e o fim do Pacto de Varsóvia, pois muitos dos governos que sucederam aos anteriores governos comunistas, perderam o controlo dos seus depósitos militares que acabaram assim por ir alimentar o mercado negro do tráfico de armas com uma reserva quase inesgotável de AK-47’s. Aliás, o mercado negro de tráfico de armas ficou tão inundado com a AK-47, especialmente em África, que em alguns países como o Ruanda, Somália, Moçambique ou a Etiópia o preço de uma AK-47 era de apenas algumas dezenas de dólares por arma e nas últimas décadas do século XX o preço caiu ainda mais devido à produção da AK-47 em grandes quantidades por fabricantes de armas sem licença.
  
Actualmente a AK-47 está presente em todos os pontos do globo e reescreveu de forma radical as regras da guerra contemporânea, pois ofereceu a grupos armados com treino relativamente modesto e poucos recursos financeiros, a oportunidade de conseguirem enfrentar e em alguns casos derrotar alguns dos mais bem treinados e melhor financiados exércitos do mundo. Esta espingarda automática, filha do governo de Estaline acabou por se transformar (e ainda o é) numa arma para todos os fins, utilizada em toda a espécie de cenários de guerra e por todo o tipo de combatentes.  
  
As mãos do estado Soviético estão inquestionavelmente gravadas nesta arma, pois, a sua criação resultou de um esforço do estado Soviético que coordenou e financiou a criação da AK-47 em todos os aspectos.


Na realidade, as origens da AK-47 podem ser traçadas até à Segunda Guerra Mundial. Os militares soviéticos tinham ficado impressionados com o desempenho da Sturmgewehr 44 utilizada pelo Exército Alemão durante a Segunda Guerra Mundial e esta espingarda automática Alemã acabou por se transformar na principal influência por detrás dos esforços que levaram ao desenvolvimento da AK-47.

Os soviéticos lançaram um concurso dentro da sua comunidade secreta de invenção de armamento, para que fosse inventada uma nova espingarda automática que fosse similar à Sturmgewehr 44. As várias equipas em competição partilhavam umas com as outras as suas ideias e assim gerou-se uma autêntica troca de saberes entre rivais. Pode-se por isso afirmar que o projecto vencedor foi na realidade o fruto do trabalho de muitas mentes e apesar de se ter conseguido gerar assim uma nova espingarda automática de qualidade excepcional, era agora necessário que se criasse uma história oficial em torno da ainda jovem AK-47 que explicasse a origem da mesma.

Por esta mesma razão a máquina de propaganda Soviética insistiu arduamente que a AK-47 era uma invenção exclusiva do Sargento Mikhail Kalashnikov, que de acordo com a história oficial do regime, se inspirou para criar a AK-47 após ter sido ferido em combate contra as forças Nazis. Pode-se assim chegar à conclusão que apesar de o Sargento Kalashnikov ter recebido praticamente todos os louros pela invenção da AK-47 – mais uma distorção da história, típica dos regimes totalitários – na realidade ele fazia apenas parte de uma gigantesca máquina governamental que encomendou, aperfeiçoou e levou a que se produzisse em massa a arma resultante de tantos e vários esforços. O mito criado em torno do Sargento Kalashnikov, nunca passou apenas disso mesmo - um mito.

Pode-se apenas dizer em defesa do Sargento Kalashnikov que ele apesar de ser apontado como o criador oficial da AK-47, pessoalmente nunca recebeu quaisquer direitos de autor relativos à sua criação, mas o regime soviético nunca deixou de o acarinhar de diversas formas, inclusive atribuindo-lhe o Prémio Estalin de Primeira Classe em 1949.
  
Indubitavelmente, a AK-47 foi concebida para ser uma ferramenta do Estado soviético e por essa mesma razão, num período inicial a arma foi distribuída exclusivamente a soldados soviéticos. Porém, em meados da década de 1950 a situação política levou a que a União Soviética fornecesse a AK-47 a qualquer Estado que estivesse ideologicamente alinhado consigo, tal era o caso da República Popular da China e da República Democrática Alemã.


Por volta de finais da década de 1950 a União Soviética tinha já montado aquilo que pode ser considerado como sendo um modelo de franchising ao estilo comunista, em que era permitido que fábricas de armamento de governos próximos de Moscovo produzissem a AK-47. Foi precisamente esta produção tão lasciva da AK-47 que levou a que muitas das armas produzidas fugissem ao controlo dos estados que as produziam e acabassem nas mãos de guerrilheiros que em várias situações utilizaram a AK-47 contra esses mesmos estados. Quem se pode esquecer do ditador Nicolae Ceausescu a ser fuzilado por AK-47's que ele próprio tratou de adquirir para o Exército Romeno?
  
No fundo e como balanço final, pode-se considerar que a AK-47 acabou por nunca ser utilizada para aquilo que ela inicialmente foi concebida para levar a cabo, ou seja, uma guerra tradicional de exércitos de grande dimensão contra outros exércitos igualmente poderosos e muito bem financiados. Muito pelo contrário a AK-47 acabou por se transformar numa arma perfeita para a guerra assimétrica. Uma guerra levada a cabo por guerrilhas que dispõem de poucos recursos financeiros e treino medíocre ou fraco em muitos casos. A pouca manutenção que é exigida pela AK-47 tornou-a uma arma perfeita para os grupos de guerrilha que muitas vezes têm de viver e combater em locais propensos à sujidade e onde os elementos climatéricos não dão tréguas ao armamento.
  
Por todas as razões acima explicitadas a AK-47 acabou por se transformar na segunda metade do século XX numa arma predilecta para a guerra de guerrilha e a sua fiabilidade no campo de batalha tornou-se lendária.


É precisamente o facto de ser uma arma fácil de compreender e que funciona até nas condições mais extremas que levou a AK-47 a ocupar o seu lugar no pódio das melhores espingardas automáticas inventadas no século XX, talvez até mesmo a melhor de todas e sem dúvida a mais fiável e resistente.

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Bibliografia:
 
- How The AK-47 Rewrote The Rules of Modern Warfare, C.J. Chivers, Wired Magazine, 2010.   

- Burst of Pride For a Staccato Executioner: AK-47, Michael R. Gordon, New York Times, 1997.  
- ILLICIT: How Smugglers, Traffickers, and Copycats Are Hijacking The Global Economy, Moisés Naím, Joanne J. Myers, Carnegie Council, 2005.  
  - Simples e Letal - A Autobiografia de Kalashnikov, O Inventor do Fuzil Mais Usado Por Terroristas e Guerrilheiros, Jerónimo Teixeira, Revista Veja, 2005. 

João José Horta Nobre
Novembro de 2010

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