quarta-feira, 8 de maio de 2013

Heróis de Viena: O Que a Europa Deve Aos Cossacos Ucranianos

Um oficial dos cossacos ucranianos em 1720.



"Mobilizai tudo o que puderes, em armas e cavalaria, para infundir o terror nos corações dos inimigos de Deus." - Alcorão, 8ª Surata, Verso 60

Em 1683 travou-se em Viena uma das batalhas mais importantes da história da Europa. O Império Otomano, possuia do seu lado um prodigioso exército que espalhava implacávelmente o terror nos balcãs e na Europa de Leste.

A Europa estava do ponto de vista militar no limite. Imparável, o exército Otomano marchava em direcção ao coração da Europa e nada parecia ser capaz de o deter no seu avanço. 

A 31 de Março de 1683 o sultão Mehmet IV envia uma declaração à corte imperial de Viena. Precisamente no dia seguinte, o exército imperial otomano parte de Edirne na Trácia e no início de Maio já está em Belgrado. A partir de Belgrado, os otomanos começam a marchar em direcção a Viena. A força militar de elite do exército imperial otomano era constituída pelos Tártoros da Crimeia, ferozes combatentes, conhecidos pela sua tenaz resistência física no campo de batalha. 

É precisamente esta força militar de elite, constituída por 40.000 homens, que chega primeiro a Viena no início de Julho de 1683.

Depois de reunidas, as forças militares otomanas contavam com cerca de 200.000 homens. Para fazer frente a esta força prodigiosa para a época, os europeus apenas contavam com cerca de 100.000 homens. A derrota cristã parecia iminente e inevitável...

Porém, a conjunção de vários factores, como o desconhecimento do terreno, a má liderança militar, o cansaso dos otomanos e uma boa dose de sorte determinaram a vitória das forças militares cristãs lideradas pelo Duque da Lorena e o rei Jan III Sobieski da Polónia. 

Muito se tem escrito e falado ao longo dos séculos sobre os militares envolvidos nesta épica batalha. Porém, muito poucos historiadores sabem que o papel mais decisivo nesta batalha não foi representado nem pelos austríacos, nem pelos polacos, mas sim pelos cossacos da Ucrânia - autênticos especialistas em combate contra forças turcas e tártaras.[1]

A razão para o profundo desconhecimento que existe na Europa Ocidental em relação ao papel dos cossacos ucranianos na batalha de Viena, prende-se com o facto de durante séculos, muitos historiadores da Europa Ocidental terem literalmente ignorado e passado ao lado da história da Europa de Leste que apenas nas últimas duas ou três décadas começou a merecer mais atenção por parte do Ocidente. O facto de muitos arquivos históricos terem ficado inacessiveis durante a maior parte do século XX devido à perseguição aos historiadores levada a cabo pela União Soviética também contribuiu largamente para esta ignorância generalizada...
 
No entanto, estudos mais recentes, fruto da investigação aprofundada e cuidadosa, concluíram que num acto de verdadeiro desespero, à medida que o exército imperial otomano se aproximava cada vez mais de Viena, os responsáveis militares pela defesa da capital austríaca, lançaram um apelo de socorro aos cossacos da Ucrânia. Estes cossacos, cuja fama na Europa devido às suas capacidades de combate contra turcos e tártaros era bem conhecida, responderam prontamente ao apelo.[2]

Quando conseguiram chegar a Viena, o exército imperial otomano já tinha montado o cerco à cidade e os cossacos ucranianos não tiveram outro remédio a não ser juntarem-se às forças militares austríacas e polacas que aguardavam pelo momento certo para atacar os otomanos e assim quebrar o cerco à cidade de Viena. 

Mas para que o ataque contra os otomanos pudesse ter início, era antes necessário que se concertasse o momento do ataque em conjunto com os habitantes da cidade cercada para que estes pudessem auxiliar ao máximo a ofensiva cristã. O ataque teria de ser desferido em duas frentes para ter sucesso, de forma a esmagar os otomanos. Assim sendo, os habitantes da cidade deveriam de atacar de dentro para fora enquanto as forças cristãs estacionadas fora da cidade atacariam simultâneamente de fora para dentro. 

Foi então decidido que deveriam de ser os habitantes da cidade cercada a decidir o momento do ataque, porém, era necessário que houvesse alguém capaz de passar pelo acampamento militar otomano sem ser detecado, de forma a avisar as forças militares cristãs estacionadas fora da cidade sobre o momento do ataque.

Houve vários voluntários para levar a cabo esta tarefa de máxima importância e de alto risco - a morte era inevitável se fossem capturados pelos otomanos. 

Surpreendentemente, o escolhido para levar a cabo esta tarefa foi um cossaco ucraniano. O seu nome era George Kulchitsky e foi escolhido devido ao facto de ter vivido durante dez anos na Turquia onde foi dono de um café, o seu conhecimento da língua turca e a capacidade de se fazer passar por um turco fizeram de Kulchitsky o candidato perfeito para a monumental tarefa que se avizinhava.   

Kultchitsky saiu de Viena a 13 de Agosto e começou então a atravessar o acampamento militar otomano constituído por 25.000 tendas. Durante a sua travessia travou contacto com vários otomanos e foi interpelado por um oficial otomano que lhe pediu para lhe cantar canções turcas na sua tenda. Kulchitsky acedeu a tudo prontamente e por fim o oficial otomano ofereceu-lhe café e aproveitou para lhe perguntar quem ele era. Kulchitsky, disse ao oficial turco que ele era apenas um comerciante que se tinha juntado ao exército imperial otomano para tentar expandir os seus negócios juntando assim o útil ao agradável. O oficial turco acreditou em tudo e antes de se despedir de Kulchitsky, até lhe deu conselhos sobre como ele poderia expandir os seus negócios...

Graças à sua coragem e inegável astúcia, Kulchitsky acabou por consegui sair do acampamento otomano e entrar em contacto com as forças cristãs dando-lhes a informação necessária para ofensiva cristã.

Como recompensa pelos seus serviços, após a derrota dos Otomanos em Viena, os cristãos deixaram Kulchitsky ficar com todas as reservas de café que o exército otomano tinha abandonado ao retirar. Foi com este café que Kulchitsky inaugurou o primeiro café da Europa em Viena, que com o passar do tempo acabou por se transformar numa das bebidas mais populares da Europa. Hoje, este mesmo café ainda existe no mesmo local em Viena!  

Numa acção militar conjunta com as forças militares polacas e austríacas, os cossacos ofereceram uma dura luta aos otomanos e não demorou muito para que acossado por todos os lados, o exército imperial otomano desse início à retirada.



Um cossaco ucraniano a cavalgar vitoriosamente com a cabeça de um tártaro.

 
Porém, a história não acaba aqui, muito pelo contrário. Agora em retirada, era necessário que o exército imperial otomano fosse brutalmente acossado de forma a ser enfraquecido ao ponto de nunca mais poder ameaçar a Europa Central. Foi precisamente aqui que coube um papel muito especial e importante aos cossacos ucranianos...

Os cossacos ucranianos receberam então ordens para abrir caça aos otomanos e prontamente partiram em perseguição do exército imperial otomano. O encontro fatal para as forças militares otomanas deu-se numa pequena vila húngara próxima de Budapeste que dá pelo nome de Parkany. Após travarem um combate que é descrito como tendo sido "terrível", os cossacos ucranianos, utilizando tácticas de combate especificas dos cossacos, rechaçaram por completo o exército imperial otomano, provocando-lhe baixas tão pesadas que o pânico não tardou a espalhar-se nas fileiras do já bastante desgastado exército.

Milhares de soldados otomanos fugiram em debandada, aterrorizados pela fúria implacável dos cossacos ucranianos. A máquina militar otomana nunca mais conseguiu recuperar desta derrota profundamente desmoralizadora e a Europa Central e Ocidental ficou para sempre livre da ameaça militar otomana.[3]     

Os historiadores divergem muito sobre o número de cossacos ucranianos que participaram na batalha de Viena, os estudos mais recentes apontam para números que variam entre os 150 e os 3.500. Em reconhecimento pelos seus serviços, foi recentemente inaugurado em Viena um monumento em honra dos cossacos ucranianos que participaram na batalha de Viena em 1683.




Monumento em Viena em honra dos cossacos ucranianos que combateram na batalha de Viena. No monumento está escrito em alemão e ucraniano: "1683: Dedica-se aos Cossacos Ucranianos - Os Defensores de Viena".
  


Notas:
[1] - SHUMEYKO, Stephan, How Kulchitsky, a Ukrainian, Saved Vienna From Destruction in 1683, The Ukrainian Weekly.
[2] - SHUMEYKO, Stephan, How Kulchitsky, a Ukrainian, Saved Vienna From Destruction in 1683, The Ukrainian Weekly.
[3] - SHUMEYKO, Stephan, How Kulchitsky, a Ukrainian, Saved Vienna From Destruction in 1683, The Ukrainian Weekly. 
 
 
João José Horta Nobre
Maio de 2013
 

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