quarta-feira, 29 de maio de 2013

Pão a Porcos

Há algumas semanas atrás uma amiga ucraniana contou-me uma história caricata que penso que vale a pena deixar aqui por escrito:

Viviam-se ainda os velhos tempos da União Soviética e nesse tempo quem quisesse levar a cabo cerimónias de baptismo na fé cristã ortodoxa teria de fazê-lo às escondidas, pois a União Soviética era um Estado oficialmente ateu.

Ora, quando o seu pai nasceu, a familia quis baptizá-lo e foi falar com o respectivo padre. Corria a década de 1960 e o Estado Soviético sabia perfeitamente da existência de baptismos "ilegais" na Ucrânia, porém, fechava os olhos ao assunto para evitar males maiores...

No entanto, na Ucrânia é tradição oferecer pão caseiro aos padres orotdoxos. Assim sendo, o pai da criança (o avô da minha amiga), levantou-se bem cedo na madrugada em que pretendia ir falar com o padre para tratar de fazer o respectivo pão caseiro que pretendia oferecer ao padre da sua aldeia em agradecimento pelo baptismo e como sinal de respeito por um membro do clero da igreja ortodoxa.

A Ucrânia tem sido históricamente o "celeiro da Rússia" devido às excelentes condições edafo-climáticas que possui para a produção de cereais e por esse mesmo motivo, o trigo, a cerveja e o pão da Ucrânia têm potencialidade para serem também de excelente qualidade se forem correctamente produzidos.

Feito o pão, o personagem em questão seguiu para a casa do padre onde ofereceu ao mesmo o pão que tinha pessoalmente amassado e cozido durante a madrugada. Combinado o que havia para combinar, cada um foi à sua vida. Porém, qual não foi a surpresa e o horror deste padeiro-amador quando ao fim de um pouco olhou por cima do muro para a pocilga onde o padre guardava alguns porcos e viu o padre a dar aos animais o pão que tinha acabado de lhe oferecer!

Com que então, tinha-se levantado o senhor de madrugada para se meter a fazer pão para o padre e o padre havia tido o desplante de dar assim o pão ainda quentinho do forno aos porcos?!?! Escusado será dizer que o personagem ficou furioso e foi falar sobre o sucedido com os amigos, incrédulo ainda com aquilo a que tinha assistido.

Um dos amigos contou-lhe então que era costume o padre dar o pão aos porcos, não porque não gostasse do pão, mas porque recebia tantas ofertas de pão por semana que não conseguia comer todo o pão que os fiéis lhe ofereciam e por isso oferecia aos porcos o excedente. 

Restarão poucas dúvidas em relação à felicidade dos porcos que viviam na respectiva pocilga...


Nota: Os factos da história relatada foram reproduzidos por escrito tal e qual o respectivo autor os ouviu da boca da narradora.



João José Horta Nobre
Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
Maio de 2013







Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...