quinta-feira, 8 de Agosto de 2013

Fernando Pessoa e a República

 
 
 
 
Quando se deu o golpe-de-estado maçónico de 1910, Fernando Pessoa era muito jovem (tinha 22 anos), e, dentro do seu espírito jovem e inexperiente, imediatamente aderiu ao ideal revolucionário da república. Porém, os últimos textos de Fernando Pessoa acerca da república são a expressão da total e completa desilusão, a ponto de comparar negativamente a república instaurada à monarquia derrubada.

“Bandidos da pior espécie, (…) gatunos com o seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas natos com grandes patriotismos íntimos — de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime [republicano].” 
 
Esta definição assenta que nem uma luva, ainda hoje, aos republicanos da nossa praça: se não são gatunos ou bandidos da pior espécie, são anarquistas. O republicano actual altera entre o anarquismo de Francisco Louçã, a gatunice de José Sócrates, e a bandidagem da maçonaria espelhada, por exemplo, no recente escândalo da polícia secreta.


“A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a Cortes constituintes ou a qualquer espécie de Cortes.” 
 
Fernando Pessoa compara o abuso das ditaduras, por parte da monarquia, com o uso das ditaduras por parte da república. Um abuso significa que não é um uso normal, mas antes é esporádico; um uso significa algo que entrou na normalidade. A monarquia abusou, aqui e ali, das ditaduras, mas na história da monarquia, as decisões políticas e administrativas em Cortes, apesar de tudo, duraram até ao século XVIII, sendo interrompidas pelo Absolutismo; em contraponto, a república transformou a ditadura no seu modus operandi.


“A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por uma quadrilha de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa — concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) — os escândalos financeiros da monarquia.” 
 
Quando Mário Soares vem dizer que o Estado Novo não faz parte da república, apenas reforça o facto de esta ter sido constituída, não por uma, mas por uma dupla quadrilha de ladrões.


“A monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontâneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. (…) A monarquia não conseguira resolver os problemas da ordem pública; a república instituiu a desordem pública.” 
 
Repare-se que Fernando Pessoa fala em nação, e não em povo; Fernando Pessoa foge, aqui, ao povo, substituindo-o pela nação. A ideia de que o povo, em geral, era contra a monarquia é, no mínimo, falaciosa [e Fernando Pessoa deveria saber disso]. Tanto assim é, que a república nunca foi referendada.

E no conceito de nação, Fernando Pessoa revela implicitamente a influência da elite maçónica que organizou, por exemplo, a Carbonária. E no que diz respeito ao falhanço da manutenção da ordem pública por parte da monarquia, este facto deveu-se exactamente à acção revolucionária da maçonaria, da Carbonária, dos anarquistas republicanos que minaram, durante décadas a fio, a ordem pública durante a monarquia liberal e constitucional.



“É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da república? Não melhoramos em administração financeira, não melhoramos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito e impresso o rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.” 
 
A actual liberdade da III república advém de uma cópia política da monarquia constitucional: até o estatuto actual do presidente da república se assemelha ao estatuto do rei durante o período da monarquia constitucional. De resto, a I e a II repúblicas alternaram entre a falta de liberdade e o anarquismo bombista.


“O regime [republicano] está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional — trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicano português — o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se.” 
 
Aqui, Fernando Pessoa reconhece (finalmente!) que os republicanos eram uma minoria reduzidíssima. E, de facto, embora a bandeira republicana seja a nossa bandeira [por enquanto], temos que convir que a combinação das cores é feia: Fernando Pessoa tinha e tem razão. Não fora a sua esfera armilar central, a bandeira republicana seria esteticamente uma total aberração. Os portugueses só se devem rever nesta bandeira porque é a que temos [por enquanto].


“Este regime [republicano] é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto em que a república veio a ser.” 
 
Esta III república copia, da primeira, a conspurcação espiritual — se é que existe nela alguma espiritualidade para poder ser conspurcada; diria antes que a III república é a conspurcação em si mesma, em total ausência de qualquer resquício de espiritualidade. 



Orlando Braga
14 de Junho de 2012

 
[citações de Fernando Pessoa: “Balanço Crítico”, textos em prosa]. 





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