terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Euromaidan: Quais as Possíveis Consequências Para Portugal?

A bandeira portuguesa numa barricada montada perto do estádio do Dínamo de Kiev.



"Em todos os tempos, os prudentes sempre venceram os audazes." - Théophile Gautier (1811 - 1872)

A recente situação na Ucrânia tem dado muito que falar na imprensa e na web, mas pouco se tem escrito sobre as suas possíveis consequências para Portugal em termos económico-políticos. Isto acontece porque por um lado a Ucrânia é um país com o qual Portugal tem relações económicas muito marginais e por outro, a Ucrânia é um país com o qual historicamente as gentes das terras lusas nunca tiveram praticamente nenhuma ligação devido principalmente à distância geográfica e cultural que separam as duas nações.

Oficialmente, Portugal e a Ucrânia apenas estabeleceram relações diplomáticas pela primeira vez a 27 de Janeiro de 1992. É de louvar o facto de Portugal ter sido um dos primeiros países da Europa e do Mundo a reconhecer a soberania do Estado Ucraniano e a abrir uma missão diplomática em Kiev logo em Dezembro de 1993. A Ucrânia, por sua vez, apenas inaugurou uma embaixada em Lisboa já em Março de 2000[1], provavelmente devido ao elevado número de cidadãos ucranianos que imigraram na mesma época para Portugal, a maioria dos quais fugidos à miséria e corrupção que tomaram conta da Ucrânia após o colapso da malograda União Soviética.

Os últimos 22 anos de diplomacia luso-ucraniana têm assistido a uma progressiva aproximação entre as duas Nações que partilham ambas em comum o facto de terem sido brutalmente vitimizadas durante décadas pelo regime soviético sem qualquer provocação prévia. A Ucrânia sofreu na pele mais de 70 anos de ditadura comunista, incluindo um genocídio patrocinado pelo "camarada" Estaline e que até bem recentemente foi continuamente negado ou menorizado pela maioria dos partidos de esquerda. Portugal, por sua vez, foi durante 13 anos atacado pela União Soviética nas suas províncias ultramarinas em África. Vale a pena referir que Portugal, tal como a Ucrânia, nunca agrediu a União Soviética, mas esta mesmo assim decidiu fazer-nos guerra, armando, financiando e treinando terroristas, infiltrando armas e abrindo o caminho para a dita "descolonização" que resultou em mais de 1 milhão de mortos na África Portuguesa.

Não podemos esquecer também a forma como o KGB treinou militantes do Partido Comunista Português (PCP) e os preparou para levarem a cabo a orgia de destruição que efectivamente colocaram em prática durante o infame PREC, período durante o qual quiseram até montar em Portugal um regime em tudo semelhante ao que hoje existe em Cuba... Não é por isso exagero dizer-se que Portugal e a Ucrânia são nações que partilham uma irmandade no que concerne às experiências por si vividas em relação ao terrorismo, crime e patifaria patrocinadas pelo União Soviética durante décadas, uma potência que sem provocação tomou a opção de ser nossa inimiga comum.

Diz o velho ditado que "Deus escreve direito por linhas tortas" e, de facto, assim parece ser, pois menos de duas décadas após a União Soviética ter promovido a "descolonização" à bruta da África Portuguesa, foi a vez da própria União Soviética ser "descolonizada" com a sua implosão definitiva e a morte ideológica do Marxismo no início da década de 1990. Finou-se assim a "Pátria do Socialismo" após mais de 70 anos de ditadura, mas atrás de si deixou um rasto de destruição e morte com problemas de toda a ordem nos Estados onde em tempos interviu, a bem ou a mal (quase sempre a mal...), para construir "os amanhãs que cantam"

Mais uma vez, nem a Ucrânia, nem Portugal escaparam às consequências da queda da União Soviética. Para os ucranianos, a mesma significou o direito à sua tão sonhada independência pela qual o mártir do Nacionalismo ucraniano, Stepan Bandera, dedicou toda a sua vida. Mas apesar de toda a ênfase inicial, a corrupção, as máfias e a incompetência pura e simples, não tardaram a tomar conta do establishment político ucraniano, muitas vezes com a "pata" do "urso russo" metida bem no centro dos escândalos. É preciso não esquecer também a interferência estado-unidense na política ucraniana que discreta, mas seguramente, tem financiado e apoiado toda uma série de actos e movimentos que visam apenas provocar desnecessariamente a Federação Russa e reduzir a soberania da Ucrânia a um pau-mandado dos Estados Unidos da América.

Para Portugal, o fim da União Soviética colocou um ponto final nos seus financiamentos e apoios obscuros ao PCP. Mas nada, nem ninguém, nos pode recompensar pela devastação que o nosso país sofreu nos últimos 40 anos às mãos dos traidores marxistas e dos seus lacaios. Os danos foram profundos em termos sócio-económicos e mesmo que a política portuguesa mude de rumo em direcção a um regime que verdadeiramente defenda os interesses portugueses e não os interesses "do Partido" ou dos agiotas de Wall Street, serão necessárias décadas até se conseguir reconstruir Portugal.

Todas estas similaridades partilhadas por Portugal e pela Ucrânia num combate de décadas contra o némesis marxista, devem de ser por isso encaradas como um incentivo ao aprofundamento da cooperação luso-ucraniana em todas as suas vertentes. Não seria mesmo má ideia pensar-se na criação de um novo Movimento dos Não-Alinhados que congregasse e unisse as pequenas nações da Europa numa frente comum para resistir às pressões e influências das grandes potências como os Estados Unidos e a Rússia e que servisse simultâneamente de alternativa à sinistra União Europeia. 

O objectivo deste movimento não seria provocar desnecessariamente as grandes potências, pois tal seria simplesmente estúpido e infrutífero, mas apenas oferecer uma voz comum (quem sabe até uma aliança económico-militar...), mais sólida e forte aos países mais pequenos e economicamente fracos da Europa que sozinhos e isolados acabarão inevitavelmente por serem comidos pelos grandes...

É preciso não esquecer que dezenas de milhares de ucranianos têm encontrado nas terras lusas um refúgio seguro. Muitos já vivem em Portugal há mais de uma década e temos toda uma geração de jovens luso-ucranianos bem integrados no tecido social e económico. Segundo as estatísticas, residem em Portugal cerca de 50 mil ucranianos[2] em situação legal e não restam dúvidas de que são uma das comunidades mais qualificadas em termos académicos e profissionais e também uma das de mais fácil integração devido indubitavelmente à raíz cristã da sua cultura.

Segundo afirmou em 2012 o Embaixador da Ucrânia em Portugal, Oleksandr Nykonenko, a amizade entre os dois países tem potencial para se transformar "numa cooperação económica mutuamente benéfica"[3]. A Ucrânia é um mercado que pode absorver muitos dos produtos que Portugal já tem tradição em exportar. Por outro lado, em termos de matéria de alta tecnologia, a Ucrânia é um país que tem dado passos muito importantes e possui inclusive o domínio da tecnologia nuclear e as restantes tecnologias a si associadas. A Ucrânia, por ser uma porta de entrada e saída para o Oriente, possui também um forte potencial como "um trampolim para entrada de bens e serviços portugueses nos mercados dos países vizinhos, incluindo a Ásia Central e o Sul do Cáucaso"[4]. Não deve ser por isso menosprezada a importância da Ucrânia em relação a Portugal como uma possível futura artéria de acesso aos mercados orientais.

Por agora e do ponto de vista económico, a Euromaidan pouco efeito terá em Portugal, pois em termos energéticos Portugal obtém a sua energia "na orla do Mediterrâneo e Atlântico; as fontes de gás natural são, por via de gasoduto, a partir de Espanha, proveniente da Argélia, e por via marítima, através de Sines, há contratos de gás com origem na Nigéria".[5]

Em termos de importações de bens, a Rússia é e muito provavelmente continuará a ser o maior e mais importante parceiro comercial da Ucrânia, sendo esta até considerada historicamente como sendo o "celeiro da Rússia". Em 2012, Portugal "foi apenas o 41º país a importar bens e serviços da Ucrânia, com uma quota de 0,5% no total das exportações daquele país".[6]

A Rússia, como é óbvio, tem sido sempre o principal cliente da Ucrânia, o que só por si significa que a indústria e agricultura ucranianas estão fortemente dependentes da Rússia e esta representa uma quota de 25,7% no mercado ucraniano.[7] A Ucrânia exporta essencialmente metais comuns como o ferro, o ferro fundido e o aço, seguem-se os produtos agrícolas e as máquinas. Portugal importa muito pouco da Ucrânia e isto fica patente no facto de em 2012 as importações oriundas da Ucrânia terem pesado apenas 0,1% do total.[8]

A Rússia é também o maior fornecedor de bens da Ucrânia, representando 32,4% do total das importações do país. Acima de tudo, a Ucrânia está dependente da Rússia em termos de combustíveis e óleos minerais como o petróleo, o gás natural e até o combustível nuclear.[9] O que Portugal importa mais da Ucrânia é milho e este representou em 2012 mais de 90% do total das nossas importações desse país. A balança comercial nestas relações económicas luso-ucranianas é favorável não a Portugal, mas à Ucrânia, pois apenas entre Janeiro e Novembro de 2013, Portugal apresentou um saldo negativo com a Ucrânia que totalizou 145 milhões de euros.[10]

Na balança comercial de serviços repete-se o mesmo saldo negativo com a Ucrânia a exportar mais serviços para Portugal do que a importar. Neste caso, apresentamos um saldo negativo de 106 mil euros.[11] Em termos de investimentos, Portugal investiu cerca de 163 milhões de euros na Ucrânia só em 2012, porém, comparativamente a 2008, o nosso investimento desceu mais de 17%.[12] 

Os ucranianos costumam dizer que um verdadeiro amigo apenas se revela nos momentos difíceis[13] e eu gostaria sinceramente que os nossos países que têm atravessado momentos tão conturbados, pudessem também aprofundar a sua amizade e criar uma frente comum contra a tirania das grandes potências, começando pela própria União Europeia... 

Infelizmente, os Ucranianos parecem estar mais preocupados em entrar para a União Europeia e ficarem sujeitos à ditadura politicamente correcta dos burocratas de Bruxelas, do que em defender a sua soberania nacional. Ou seja, os ucranianos querem libertar-se da influência russa, mas apenas para em seguida mergulharem de cabeça e em cheio na armadilha da União Europeia. 

Os ucranianos estão alegadamente e segundo os próprios, a fazer uma revolução para se libertar do neocolonialismo russo, mas simultâneamente estão prestes a cometer uma das maiores loucuras da sua história ao quererem aderir à União Europeia. Logo se hão-de arrepender quando Bruxelas lhes começar a destruir a agricultura, a regulamentar tudo e mais alguma coisa e em última análise, a reduzir a Ucrânia a uma colónia subserviente a outros interesses contrários aos seus.

E se porventura a Ucrânia alguma vez chegar a aderir ao maldito Euro, então o povo ucraniano que se vá preparando para ter níveis de desemprego na ordem dos 20% a 30% e uma inflação galopante associada à perda de competitividade económica. E já agora, os ditos "nacionalistas" ucranianos que querem aderir à União Europeia, que se preparem também para "abrir fronteiras" a toda a alma que lhes bater à porta e verem os seus heróis nacionais rotulados de "fascistas" e "nazis" pela polícia europeia do politicamente correcto. 

Na União Europeia é assim que as coisas funcionam e se não gostaram, então terão de enfrentar os ataques sem quartel por parte dos media, as sanções de Bruxelas e toda a espécie de ameaças e subornos que são já o prato do dia no que diz respeito ao comportamento das grandes potências como a França e a Alemanha em relação aos seus congéneres mais fracos.

Para concluir e respondendo em definitivo à pergunta formulada no título desta breve escrito, as consequências para Portugal da Euromaidan são por agora basicamente nulas, ou seja, a não ser que detone uma guerra civil devastadora na Ucrânia (algo improvável), o preço da energia e as suas fontes, não serão afectadas no caso português. Do ponto de vista político, a diplomacia portuguesa deve manter-se neutra em relação à Euromaidan, não intervindo com nenhuma declaração estúpida ou despropositada e tendo sempre em vista o bem nacional. Portugal deve manter-se à margem deste conflito, pois ele não nos diz respeito e serve apenas interesses obscuros e alheios aos nossos. Por agora, a Ucrânia não passa de uma marioneta nas mãos da Rússia e dos Estados Unidos, entrar ou intervir em tal conflito, com actores tão poderosos e perigosos, não traria vantagens absolutamente nenhumas a Portugal.

Aos ucranianos só lhes desejo boa sorte e espero que coloquem a sua casa em ordem o mais depressa possível.

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Notas:
[1] NYKONENKO, Oleksandr - 20 Anos das Relações Luso-Ucranianas. Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2012. Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2266705&seccao=Convidados&page=-1
[2] NYKONENKO, Oleksandr - 20 Anos das Relações Luso-Ucranianas. Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2012. Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2266705&seccao=Convidados&page=-1
[3] NYKONENKO, Oleksandr - 20 Anos das Relações Luso-Ucranianas. Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2012. Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2266705&seccao=Convidados&page=-1 
[4] NYKONENKO, Oleksandr - 20 Anos das Relações Luso-Ucranianas. Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2012. Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2266705&seccao=Convidados&page=-1
[5] LUSA - Ucrânia: Situação Sem Impacto no Preço e Fornecimento de Gás a Portugal. Expresso, 20 de Fevereiro de 2014. Link: http://expresso.sapo.pt/ucrania-situacao-sem-impacto-no-preco-e-fornecimento-de-gas-a-portugal-regulador=f857052
[6] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0
[7] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0
[8] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0
[9] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0
[10] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0
[11] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0
[12] MENDES, André Cabrita - O Que Compra Portugal à Ucrânia? Mais de 90% é Milho. Dinheiro Vivo, 24 de Fevereiro de 2014. Link: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO326242.html?page=0      
[13] NYKONENKO, Oleksandr - 20 Anos das Relações Luso-Ucranianas. Diário de Notícias, 27 de Janeiro de 2012. Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2266705&seccao=Convidados&page=-1


João José Horta Nobre
Fevereiro de 2014


Publicado no "Diário de Notícias" a 10 de Abril de 2014. 

Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/jornalismocidadao.aspx?content_id=3806678&page=-1



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