sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Que Resta Hoje do Anarquismo?

 


"A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros." - Luigi Pirandello (1867 - 1937)

Ao contrário da Espanha e da Grécia, o pensamento e as práticas anarquistas não parecem ter deixado em Portugal um lastro profundo. Parece de facto estranho que um movimento político e social que se mostrou tão pujante entre os finais do século XIX e os finais da década de 1920, tenha por assim dizer "desaparecido" após a década de 1930 e que o seu património filosófico não se tenha transmitido de forma expressiva para as novas gerações.

Apesar da relativa proliferação de pequenos grupos e publicações anarquistas após o 25 de Abril, nunca se constituiu nenhuma federação anarquista em Portugal após o 25 de Abril com capacidade para intervir a longo prazo na sociedade e com resultados substanciais. Um dos motivos que conduziu a esta realidade é sem dúvida a forte perseguição que a extrema-esquerda portuguesa levou a cabo contra grupos anarquistas, menorizando os mesmos, quando não os ridicularizou de forma a tentar monopolizar a situação político-ideológica em Portugal a seu favor.

Actualmente, é mais do que claro que a ideologia Anarquista apresenta alguns sinais de envelhecimento e esclerose, mas não está provado que não contenha igualmente a dose suficiente de elementos revitalizadores capazes de lhe transmitirem um segundo fôlego e consequências sociais ainda dificilmente imagináveis.[1]
 
Nos últimos anos parece estar a emergir um outro clima, fruto em grande parte das próprias condições que o sistema capitalista tem vindo a forjar. Este novo clima poderá vir a fornecer o combustível necessário para um ressurgimento do anarquismo como movimento político-social se as condições históricas para tal forem realizadas. 

Na Grécia e na Espanha os ataques terroristas em escala menor, levados a cabo por células anarquistas contra alvos como a Igreja, os bancos e os seus rivais da extrema-esquerda e extrema-direita, são já um lugar comum. O movimento anarquista nestes países não tem capacidade para tomar o poder, mas possui capacidade para criar um clima de instabilidade social e provocar graves prejuízos ao erário público através dos actos de vandalismo que promove e incentiva.

No entanto, parece altamente improvável que o Anarquismo ressurja em força a curto ou médio prazo, pois trata-se de uma ideologia que na actualidade se encontra demasiado raquítica para levar a cabo qualquer tipo de acção ou mobilização social politicamente cedível. Por agora, o Anarquismo está adormecido, porém, nada nos garante que sempre assim seja...

Por outro lado, na actualidade não há praticamente nenhuns intelectuais anarquistas de renome e politicamente significantes a nível mundial e no caso português, a "velha guarda" que escrevia abundantemente em jornais e revistas já faleceu há muito, não restando assim nenhum intelectual anarquista no Portugal de hoje digno de prolongadas referências.

O movimento anarquista teve uma profunda influência nas ideias político-sociais que se difundiram com o Maio de 68[2], mas apesar deste facto, nada parece ter conseguido inverter o forte declínio em que o movimento e a filosofia anarquista caíram a partir do início da década de 1970. 

Isto não significa contudo que o Anarquismo não continue a influenciar actualmente toda uma série de movimentos político-sociais que vão desde a extrema-esquerda à extrema-direita. As tácticas de luta social empregadas já no século XIX pelos anarquistas foram adoptadas por muitos grupos radicais de todos os quadrantes políticos. Nomeadamente a mobilização de massas, a acção directa através de ataques terroristas, as ocupações e o vandalismo, a utilização maciça de jornais, revistas e panfletos, tudo isto são elementos de luta política na qual os anarquistas foram pioneiros e que posteriormente foram adoptadas por muitos grupos radicais da extrema-esquerda e da extrema-direita revolucionárias.

O movimento Skinhead surgido na década de 1960, a par do movimento Punk e Emo surgidos já na década de 1980, são exemplos de movimentos culturais que também foram beber alguma inspiração à filosofia anarquista, esta influência fica patente no apelo que estes movimentos culturais fizeram e fazem à subversão da cultura e ordem social tradicionais.[3]

A Guerra do Iraque em 2003 proporcionou a primeira grande oportunidade do século XXI para os vários movimentos e organizações de cariz anarquista. Proliferaram então as manifestações e protestos em torno das bandeiras anti-guerra, anti-globalização e anti-capitalista.[4] A partir do início do século XXI os vários movimentos e tendências anarquistas têm-se destacado também nos protestos e combates de rua que têm levado a cabo nos locais onde se realizam encontros e reuniões da Organização Mundial do Comércio, o G8 e o Fórum Económico Mundial. 

A Internet por sua vez foi muito possivelmente a melhor coisa que surgiu para a filosofia anarquista nos últimos 50 anos. A Era dos panfletos políticos está hoje claramente ultrapassada e a falta de dinheiro com que a maioria das organizações anarquistas se defrontam é um factor que desincentiva à publicação de jornais e revistas. Por este motivo a Internet assume hoje uma importância fulcral no que toca à disseminação das ideias anarquistas e basta navegar um pouco na mesma para se perceber a quantidade de fóruns, blog's, websites e grupos de hackers como a Anonymous que proliferaram nos últimos anos. Neste último caso, os movimentos anarquistas estão na linha da frente e são muito provavelmente em todo o Ocidente os grupos políticos mais bem preparados para levar a cabo acções de terrorismo cibernético e ciberguerra. 

Actualmente existem várias federações anarquistas internacionais que vale a pena mencionar, como a Internacional de Federações Anarquistas (IFA) e a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Curiosamente, mas não por mera coincidência, o maior movimento anarquista organizado hoje em existência no Mundo é espanhol e divide-se em dois ramos que dão pelo nome de Confederación General del Trabajo (CGT) e a Confederación Nacional del Trabajo (CNT). Ao todo, a CGT já contava com cerca de 100,000 membros activos em 2003.

A Suécia também é um país onde existe uma relativamente forte presença anarquista na forma sindical com a Organização Central dos Trabalhadores da Suécia (OCTS) e a Federação Sueca da Juventude Anarco-Sindicalista (FSJAS). Na Itália destaca-se a União Sindical Italiana (USI), nos Estados Unidos da América sobressai a Aliança Solidária dos Trabalhadores (AST) e no Reino Unido a Federação de Solidariedade (FS). A nível internacional vale a pena destacar ainda a Industrial Workers of The World, uma união de trabalhadores de cariz revolucionário-indústrial, fundada em 1905 e que continua activa até hoje.

Apesar de toda a proliferação de organizações e movimentos anarquistas, uns activos, outros meramente simbólicos e outros ainda que se dedicam quase exclusivamente à ciberguerra, o facto é que o Anarquismo apesar de estar moribundo a nível político-social, continua a constituir uma força que não pode de forma alguma ser menosprezada ou relegada para segundo plano, mesmo encontrando-se muito enfraquecida e longe do zénite de popularidade que atingiu entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX.

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Notas:
[1] HENRIQUES, Júlio - Sobre o Anarquismo em Portugal, Le Monde Diplomatique,  http://pt.mondediplo.com/spip.php?article453.
[2] PATTEN, John - Islands of Anarchy: Simian, Cienfuegos, Refract and Their Support Network. Kate Sharpley Library, Link: http://www.katesharpleylibrary.net/dnckhs.
[3] MCLAUGHLIN, Paul - Anarchism and Authority. Ashgate, 2007.
[4] RUPERT, Mark - Globalization and International Political Economy. Rowman & Littlefield Publishers, 2006.


João José Horta Nobre
Fevereiro de 2014







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