sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ricardo Salgado Dá Razão a Lenine

Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924)


"Não podemos esperar chegar a lado algum se não recorrermos ao terrorismo: os especuladores têm de ser fuzilados no local. Indo ainda mais longe, deve-se de lidar com os bandidos com a mesma resolução: eles também têm de ser fuzilados no local." - Vladimir Ilitch Lenine, numa intervenção aquando de uma reunião do Presidium do Soviet de Petrogrado a 14 (27) de Janeiro de 1918

Quando Vladimir Ilitch Lenin (1870-1924) - o mais misterioso e enigmático de todos os revolucionários bolcheviques - colocou em prática a sua política de "terror vermelho" a partir de 1918[1] como forma de tentar derrotar definitivamente a velha ordem burguesa, este fê-lo por estar absolutamente convencido de que a única via para derrotar o regime capitalista sequestrado por banqueiros e especuladores era a do terror de Estado sem limites nem restrições. Lenine não acreditava no Estado de Direito e por isso mesmo o suprimiu em todo o território controlado pelos bolcheviques. O Estado de Direito, ou seja, o Estado em que as acções do mesmo são fiscalizadas, reguladas e limitadas pelo Direito, não passava aos olhos de Lenine de uma encenação burguesa que visava perpetuar o poder da mesma.

Basicamente, Lenine considerava que o Estado de Direito seria sempre incapaz de erradicar a exploração burguesa. Num País-Império como a Rússia czarista em que os tribunais eram controlados por quem tinha mais dinheiro ou pertencia a famílias aristocráticas e a política funcionava a favor das elites que exploravam implacavelmente as massas mais desfavorecidas, a revolução era inevitável. O proletariado/povo russo via-se obrigado a sustentar os luxos escandalosos da decadente monarquia russa que utilizava sem hesitação os cossacos e as forças armadas para reprimir com toda a força qualquer protesto, a fome e a miséria entretanto foram criando o fermento e o terreno necessário para que surgisse um revolucionário violento e sedento de sangue como Lenine.

É necessário que se entenda que Lenine foi acima de tudo um  produto da própria brutalidade da Rússia czarista e foi a cegueira política do Czar Nicolau II que permitiu que as coisas chegassem onde chegaram na terra da boa vodka e das planícies geladas. Como quem sai aos seus não degenera, Lenine (também ele de descendência aristocrata...)[2] acabou por impor uma política de terror na Rússia Bolchevique que superou em larga escala o terror czarista. Só nas duas primeiras semanas da Revolução Bolchevique terão sido executadas mais pessoas do que em todo o século XIX pelo regime czarista. Séculos de exploração e injustiça social acabam sempre por descambar neste tipo de violência assassina, normalmente com episódios de terror de carácter vingativo e sádico.

O que sucedeu na Rússia a partir de Outubro de 1917 foi mais uma orgia de vingança sádica contra a velha ordem feudal e burguesa do que outra coisa qualquer. Os apelos revolucionários de Lenine não tardaram a atrair massas de jovens voluntários dispostos a esquartejar e dar de comer aos cães toda a família real russa e quaisquer outros "inimigos do povo". Séculos de injustiças e exploração feudal sem limites transformaram-se quase de um dia para o outro num ódio visceral em relação a tudo aquilo que cheirasse a czarismo ou a burguesia capitalista.

Ora, o que tem tudo isto a ver com Ricardo Salgado e a actual crise do Banco Espírito Santo?

Ontem um meu conterrâneo que nem sequer é comunista dizia-me a espumar de raiva que estava "desejando que o Partido Comunista ganhe as eleições para limpar o lixo todo deste País."

A "limpeza" a que se refere o meu conterrâneo, subentenda-se, é o extermínio físico daqueles que ele considera como sendo os responsáveis por Portugal ter chegado onde chegou. O "lixo" são como não podia deixar de ser, os banqueiros, os especuladores, os corruptos, os vendidos e restantes responsáveis pela actual tragédia nacional.

Quem me conhece sabe que eu não sou comunista, nem acredito na viabilidade económica desse sistema, tal como não acredito na viabilidade económica do neoliberalismo. Mas acredito na raiva do povo quando a vejo e nos dias que correm raiva e ódio puro às elites europeias, banqueiros e especuladores é coisa que abunda e já fervilha...

Tal como na Rússia czarista, também hoje em Portugal e na Europa os tribunais são geralmente controlados por quem tem mais dinheiro, não existe verdadeira justiça, a democracia é uma charada, o fosso entre ricos e pobres não pára de aumentar, a corrupção transpira por todos os poros da sociedade, as elites banham-se numa opulência escandalosa e nada parece funcionar como deve de ser. Os mais desfavorecidos e a classe média que têm progressivamente perdido os poucos direitos adquiridos que conseguiram obter à custa de muita luta e derramamento de sangue, em contrapartida, vão ganhando cada vez mais raiva e ódio contra tudo aquilo lhes cheire a burguesia. Tudo isto é a prova de que quase um século após a Revolução Bolchevique, as elites europeias nada aprenderam e nada querem aprender até ser demasiado tarde...

Desde os primórdios da sua existência, tem sido a burguesia a amassar todas as revoltas e revoluções contra si própria. Desta gente suicida nada se pode esperar a não ser o delírio e a loucura completa enquanto vivem enclausurados nas suas torres de marfim, situação esta, diga-se de passagem, que só se continuará a verificar enquanto o todo-poderoso e soberano povo/proletariado o for permitindo...

"Mas como foi possível???", assim perguntam sempre os idiotas de serviço com cara de amélias espantadas quando ocorre uma revolução sangrenta em qualquer ponto do Mundo. Pois eu sei muito bem como foi e é possível, basta moer as massas, colocá-las em "banho-maria" e esperar...

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Notas:
[1] MELGUNOV, Sergei Petrovich - The Red Terror in Russia. Hyperion Publisher, 1975.
[2] RICE, Christopher - Lenin: Portrait of a Professional Revolutionary. London, Cassel & Co, 1990. 

João José Horta Nobre
Agosto de 2014



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