terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Fascismo e a Memória Curta da Esquerda




"O Comunismo distingue-se fundamentalmente do Fascismo porque foi o primeiro." - Virgílio Ferreira (1916 - 1996) in "Pensar", Bertrand Editora, 1992.

A esquerda usa e abusa da palavra "Fascismo". Desde há décadas, quando se trata de atacar qualquer inimigo, a esquerda não hesita em rapidamente o apelidar de "fascista" e a propaganda marxista tem-se laboriosamente encarregue desde a Segunda Guerra Mundial de erguer um "muro de betão" que tenta a todo o custo esconder a velha amizade e camaradagem que em tempos a esquerda partilhou com o "papão" fascista. A esquerda padece e sempre padeceu de memória curta e infelizmente são poucos os que tanto dentro, como fora do campo político da esquerda contradizem esta tendência. Deixo aqui um breve contributo que espero que possa auxiliar alguns "camaradas" a combater a gravíssima amnésia de que padecem há demasiado tempo.

Aquando da fundação dos Fasci italiani di combattimento em 1919, uma parte significativa dos seus membros e teóricos políticos eram, à semelhança do próprio Mussolini, ex-marxistas e/ou ex-membros de organizações da esquerda radical e revolucionária. Já em 1917 e no papel de líder dos Fasci d'Azione Rivoluzionaria, Benito Mussolini apoiou abertamente a Revolução Bolchevique, tendo-se mais tarde desiludido em relação à mesma por esta não ser na sua visão suficientemente radical, vejam bem! Sendo também um admirador de Lenine, Mussolini ficou igualmente desiludido com este por considerar que o mesmo estava a ficar demasiado parecido com o Czar Nicolau II.[1]

Desde a sua génese e até tomar o poder, o Fascismo foi em muitos aspectos ainda mais de esquerda do que a própria esquerda. O apelo à acção popular revolucionária, a estrutura para-militar, a retórica anti-capitalista e anti-burguesa, o anti-clericalismo, o ódio às elites e às monarquias, todos os elementos da esquerda mais radical e violenta estavam presentes no Fascismo. Talvez a única coisa que o Fascismo partilhava com a direita fosse o fervor nacionalista, de resto nada mais o distinguia da esquerda. 

No campo social, o Manifesto Fascista (Il manifesto dei fasci italiani di combattimento) publicado em 1919 por Alceste De Ambris e o futurista Filippo Tommaso Marinetti[2] propunha avanços radicais para a época como o sufrágio universal para homens e mulheres, a criação de uma jornada de trabalho de oito horas para todos os trabalhadores, um salário mínimo, a participação dos trabalhadores na gestão das empresas, a redução da idade da reforma dos 65 para os 55 anos, um forte imposto progressivo sobre todo o capital, a confiscação de toda a propriedade pertencente a instituições religiosas e a revisão de todos os contratos militares, podendo o governo confiscar até 85% dos seus lucros.

Em 1924, a Itália já sob a liderança do Duce Mussolini, tornou-se o primeiro País da Europa Ocidental a reconhecer a União Soviética.[3] Se dúvidas houvesse sobre a latente irmandade entre marxistas e fascistas, estas dissiparam-se todas aqui. A este reconhecimento diplomático por parte da Itália Fascista, seguiram-se toda uma série de relações amistosas com os soviéticos que iam desde o campo económico ao campo cultural.

Na sua essência, o objectivo final tanto do Fascismo como do Marxismo era o esmagamento revolucionário da velha ordem social conservadora e burguesa e a sua substituição por uma nova ordem social baseada no culto da força, da vitalidade e da ordem em prol dos trabalhadores. A única diferença de relevo era que enquanto o Fascismo advogava o Nacionalismo, já o Marxismo seguia a linha do Internacionalismo, mas na praxis ambas as ideologias partilham muito mais semelhanças do que diferenças.

Em Portugal, o professor Salazar tornou-se um grande admirador de Mussolini e do Fascismo Italiano e chegou a ter na sua secretária uma fotografia de Mussolini autografada pelo próprio. No entanto, o modelo político seguido por Salazar, apesar de partilhar algumas semelhanças com o Fascismo Italiano, não foi na realidade um verdadeiro Fascismo devido à sua profunda interligação com a Igreja Católica que no fundo foi o que impediu que o regime caísse nos excessos de violência que caracterizaram outros regimes fascistas. Se quiserem, podem utilizar o termo "Fascismo Clerical" para caracterizar o regime de Salazar, mas mesmo assim ficam muito aquém de uma definição completa e que verdadeiramente faça justiça àquilo que realmente foi o Salazarismo.


António de Oliveira Salazar com a fotografia autografada de Mussolini sobre a sua secretária.


O ódio de Mussolini ao Liberalismo económico fica patente no facto de em 1935 já estar nacionalizada ou sob forte controle estatal cerca de 75% de toda a indústria italiana. O Duce sempre teve um "grande interesse pela URSS, talvez mais genuíno que o que sentia pela Alemanha nacional-socialista. Mussolini manteve boas relações diplomáticas com a URSS - na noite que precedeu o ataque alemão à URSS, houve grande jantar-festa na embaixada soviética em Roma, com a presença dos mais altos hierarcas do regime, pelo que as más línguas sugerem que Hitler não informou Mussolini do iminente ataque à Rússia de Estaline com medo que os amigos fascistas italianos informassem o Kremlin - e ao longo dos dois anos que se seguiram Mussolini defendeu sempre a ideia de uma paz separada entre o Eixo e a URSS. O anti-fascismo foi, pois, uma estória do pós-guerra !"[4]

Curiosamente, foi nos anos finais da sua vida que Mussolini adoptou as políticas mais esquerdistas. Em 1943 e já como líder da então designada República Social Italiana, Mussolini insistiu que ao contrário do que muitos pensavam, ele nunca abandonou as políticas de esquerda e quis até nacionalizar a propriedade privada em 1939-1940, mas não o fez por razões tácticas que tinham a ver com a economia de guerra e a necessidade de não perturbar o sistema económico antes de vencer a guerra então em curso.[5]   

Com a guerra a correr mal para as forças do eixo, Mussolini começa cada vez mais a radicalizar as suas políticas económicas. Ordena a nacionalização de todas as empresas com mais de 100 trabalhadores e pede auxílio ao ex-comunista e antigo estudante de Lenine, Nicola Bombacci, para que o ajude a recuperar a imagem do Fascismo, conferindo-lhe uma imagem de movimento progressista e amigo dos trabalhadores. Oficialmente, a política económica da República Social Italiana foi designada de "Socialização" e foi o próprio Nicola Bombacci que teorizou a política económica. Ironicamente, mais tarde Mussolini acabaria por ser fuzilado com Bombacci e os seus corpos expostos lado a lado na Piazzale Loreto.


Da esquerda para a direita: os corpos de Nicola Bombacci, Benito Mussolini, Clara Petacci, Alessandro Pavolini e Achille Starace.


A rivalidade histórica e o ódio existente entre marxistas e fascistas é muito menos um conflito entre a esquerda e a direita e mais um conflito entre irmãos de esquerda que salvo algumas excepções, nunca se entenderam entre si, nem se vão entender. O corpus ideológico do Fascismo é hoje totalmente independente da esquerda marxista e este adquiriu uma identidade própria como ideologia política. Apesar de enfraquecido, está longe da derrota e a actual crise do modelo económico-financeiro em prática no Ocidente está a criar uma "oportunidade de ouro" para que movimentos, grupos e partidos de inspiração fascista possam ressurgir em força e com a imagem restaurada.

Claro que nada do que acima se escreveu irá alguma vez ser publicado no jornal Avante! ou ser reconhecido pelas lideranças dos partidos de esquerda, sob pena destas contradizerem mais de 70 anos de mentiras produzidas pela sua própria propaganda. No fundo, a "gloriosa luta" anti-fascista não passa de uma meia-verdade, sim, é verdade que os movimentos de esquerda combateram o Fascismo, mas apenas após o ataque Nacional-Socialista contra a União Soviética é que o fizeram com seriedade, pois até lá ambas as ideologias colaboraram extensivamente e partilharam entre si um compadrio muitíssimo comprometedor.

Resta dizer que no campo do sucesso político, o Fascismo sempre bateu e vai continuar a bater a esquerda marxista em toda a linha, pelo simples motivo de que este alia dois dos mais poderosos elementos que sempre motivaram o ser humano: a luta pela Nação ou tribo se assim lhe quiserem chamar e a luta por uma utopia social que acabe com a exploração do mais fraco pelo mais forte, ou a "exploração do homem pelo homem" se desejarem utilizar um termo genuinamente marxista. Estes dois elementos explosivos são o núcleo do Fascismo como ideologia e são o que lhe conferiram a força imbatível que teve nas décadas de 1920-1940 e que provavelmente voltará a ter futuramente numa forma metamorfoseada se a actual crise do modelo económico-financeiro na Europa não se resolver a breve trecho.

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Notas:
[1] NEVILLE, Peter - Mussolini. Oxon, England, UK; New York, New York, USA, Routledge, 2004, p. 36.
[2] ELAZAR, Dahlia S. - The making of fascism: class, state, and counter-revolution, Italy 1919–1922. Westport, Connecticut, US, Praeger Publishers, 2001, p. 73.
[3] PAYNE, Stanley G. - A History of Fascism: 1914-1945. The University of Wisconsin Press, United States of America, 1995, p. 223. 
[4] CASTELO-BRANCO, Nuno - Intolerâncias. Combustões, 12 de Agosto de 2010, Link: http://combustoes.blogspot.pt/2010/08/comunistas-e-fascistas-aliados.html
[5] SMITH, Denis Mack - Mussolini: A Biography. New York, Vintage Books, 1983, p. 311.


João José Horta Nobre
Dezembro de 2014





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