segunda-feira, 29 de junho de 2015

Na Iminência do Desastre: O Neoliberalismo e o Regresso ao Século XIX

Uma das mais terríveis facetas da Revolução Industrial foi a generalização do trabalho infantil nas fábricas. Não era incomum as crianças serem obrigadas a fazer turnos de 14 horas seguidas e os acidentes de trabalho muitas vezes eram fatais, ou resultavam em amputações.


"A liberdade que há no capitalismo é a do cão preso de dia e solto à noite." - Agostinho da Silva, «Espólio» (1906 - 1994)

Nos últimos dias tem sido mais do que visível que o "verniz" na Europa começou finalmente a estalar. Está-se a iniciar o princípio do fim da fantasia e o "sistema" literalmente espuma de raiva por ver pela primeira vez em décadas um País europeu a fazer-lhe finalmente frente.

Perante isto, chovem as acusações dos liberais, neoliberais e restantes "ais" com a choradeira do costume sobre o "conto de crianças" do Syriza e a incapacidade económica da esquerda radical.
 
Que não restem dúvidas, a esquerda radical não aprende nada com o passado e a fórmula que propõem é idiotice pura, mas o que a nova e "moderna" direita liberal propõe é lixo ideológico do século XIX. 

Os marxistas destroem inevitavelmente qualquer Nação onde metam a unha e oxalá que o Syriza não fique muito tempo no poder, caso contrário, será o fim da Grécia. A maior ameaça do Syriza e dos restantes marxistas contemporâneos não está nos danos que possam provocar ao tecido económico de um dado País, mas sim, nas engenharias sociais ou marxismo cultural que começam a implementar assim que chegam ao poder. Estas engenharias sociais visam corromper a Nação de dentro para fora e acabam por destruí-la se o mal marxista não for erradicado a tempo. 

Porém, a esquerda marxista não é a única a querer implantar engenharias sociais e radicalismos lunáticos. O neoliberalismo que hoje é a ideologia dominante nos partidos do "centrão", pretende igualmente impor as suas próprias engenharias sociais e o seu próprio radicalismo lunático. Já estamos neste momento a assistir a uma sinificação[1] da Europa, com particular intensidade nos Países sob a bota cardada da "austeridade". Se quem hoje nos desgoverna continuar no poder por mais tempo, não iremos tardar a regressar à miséria do século XIX. 

Ao escrever estas palavras, não consigo deixar de me lembrar de um dos livros que mais me marcou na minha juventude, devido precisamente à claridade com que o autor descreve este "paraíso liberal" que foi o século XIX. Refiro-me a Oliver Twist, o maravilhoso clássico de Charles Dickens que é sem sombra de dúvida um dos mais bem conseguidos retratos literários da miséria e das desigualdades sociais na Inglaterra do século XIX.

A Inglaterra do século XIX é por excelência o exemplo perfeito dos resultados do Liberalismo Clássico que os actuais neoliberais pretendem recuperar a todo o custo. Sim, é verdade que o Liberalismo e a Revolução Industrial trouxeram rápidos e inigualáveis avanços técnicos e científicos a toda a Humanidade, mas a que custo?

A esmagadora maioria dos que estão actualmente vivos, não têm a mínima noção da brutalidade das condições de trabalho enfrentadas pelo proletariado do século XIX e inícios do século XX. Aliás, não é mera coincidência o facto do Anarquismo, o Socialismo, o Marxismo e posteriormente o Fascismo (no caso da Europa Continental), terem nascido e crescido precisamente a partir desta miséria humilhante...

É e sempre foi o egoísmo ilimitado da burguesia que deu origem a todo este radicalismo ideológico. Esta burguesia parece que não se importa de viver numa opulência escandalosa enquanto é simultâneamente cercada de miséria e bairros de lata imundos. O problema para a burguesia é que esta, à semelhança dos marxistas, nunca aprende com o passado. 

A antiga aristocracia europeia do ancien régime não quis aprender nada com a Revolução Francesa de 1789, que foi uma consequência directa da miséria em que viviam os franceses, por este motivo, a aristocracia europeia quase que foi varrida do mapa e os poucos que sobreviveram foram os que souberam adaptar-se aos novos tempos e converter-se em burgueses. Por sua vez, a burguesia actual também parece que pouco ou nada aprendeu com a Revolução Bolchevique de 1917, fazia-lhes bem ler alguma literatura sobre essa revolução de forma a perceberem aquilo que eventualmente lhes pode acontecer a eles e à família deles se continuarem a insistir em políticas de miséria...

Houve um tempo e uma época em que todo o burguês quase que tremia só de ouvir falar em Comunismo. Este receio acentuou-se no pós-Segunda Guerra Mundial quando a burguesia percebeu que a miséria em fomento na Europa falida e em ruínas, não tardaria a levar a extrema-esquerda ao poder em países como a Alemanha e a França. A solução encontrada para o problema foi o desenvolvimento acentuado do Estado Providência, que foi sem sombra de dúvida a maior conquista alguma vez alcançada pelo proletariado.

Ora, este Estado Providência funcionou praticamente sem problemas até ao fim da Guerra Fria. Curiosamente, quando a União Soviética começou a entrar em crise interna e a ficar descredibilizada perante o Mundo, surgiu uma tal senhora que dava pelo nome de Margaret Thatcher e um senhor que dava pelo nome de Ronald Reagan. Estes "iluminados", percebendo que poderiam levar ao enfraquecimento e talvez até ao colapso da União Soviética se a cercassem economicamente como fizeram, perceberam também que a destruição do Mundo soviético poderia ser acompanhada pela destruição do Estado Providência, pois já não havia uma credível ameaça comunista.

É portanto fácil de ver e perceber que o fim do Comunismo foi acompanhado por um ataque propositado contra o Estado Providência. Para além deste ataque contra a maior conquista de sempre dos trabalhadores, os novos donos do poder, os tais boys and girls do "centrão" político, fizeram tudo o que puderam nos últimos vinte anos para desregulamentar e anarquizar ao máximo os tais "mercados" dos quais hoje tanto se fala. 

Só alguém que seja extremamente ingénuo é que não consegue perceber que passo a passo, temos estado nas últimas três décadas a caminhar na direcção de um regresso ao século XIX, ou seja, o fim do Estado Providência e a abolição de praticamente todas as conquistas sociais dos trabalhadores no último século. 

A "cassette" repetida pelos liberalóides do "centrão" político, para fazer passar o seu programa assassino é a de que "não há alternativa". Tudo mentira!

É óbvio que existe alternativa a este estado de coisas, simplesmente esta não convém aos donos do poder, pois implica uma necessária ruptura com as sinistras forças da alta finança ao serviço de Mammon.

Os liberalóides não gostam de falar do "paraíso liberal" que foi o século XIX, porém, nunca é demais refrescar-lhes a memória e relembrar ao povo a profunda miséria e escravatura que o aguarda se este nada fizer para combater esta gente.

Os liberalóides não gostam de falar do tempo em que metiam crianças de apenas cinco anos a trabalhar em minas de carvão, muitas das quais morriam de cancro do pulmão ou outras doenças relacionados com o trabalho antes de conseguirem chegar sequer aos 25 anos de idade.

Para a burguesia do século XIX, os pobres não passavam de sub-humanos e por isso mesmo estes raramente mostravam alguma preocupação para com as classes mais baixas. Os slums em torno de Londres, onde o proletariado vivia na maior imundice sem água canalizada ou esgotos, eram locais de verdadeira degradação humana. Não era incomum haver trinta pessoas a dormir num único quarto onde abundavam os parasitas de toda a espécie. As doenças e a subnutrição eram uma consequência natural deste modo de vida verdadeiramente horrível.

A miséria na década de 1830 era de tal ordem que  a esperança média de vida nos bairros operários era de apenas 29 anos. Um simples pedaço de pão ou de lenha no inverno, muitas vezes era o suficiente para marcar a diferença entre viver ou morrer de fome ou de frio.

Este modo de vida típico do proletariado do século XIX, marcou um claro retrocesso em relação a épocas anteriores. Antes da Revolução Industrial, a maioria das crianças trabalhava nos campos com os seus pais. A vida rural era dura e agreste, mas em nada se comparava com o horror cruel que esta gente veio a enfrentar nos bairros operários.[2] 

Tudo isto vai ao encontro do Darwinismo social que sempre foi uma das características das políticas do Liberalismo. Há uma crença nos meios liberais, hoje raramente admitida, mas por demais evidente, de que só é pobre quem não quer trabalhar. O objectivo disto é convencer-nos de que os pobres são todos malandros que não querem trabalhar e é por isso que são pobres. Os ricos são ricos porque trabalharam para ser ricos, ao passo que os pobres são pobres porque são malandros, ou seja, biologicamente inferiores. Julgo que isto rivaliza com as teses nazis de supremacia racial!

É esta, caros leitores, a génese das tais teses "modernas" da direita chique e croquete que hoje se pavoneia pelos melhores restaurantes da nossa Capital e frequenta os clubes mais elitistas enquanto planeiam a escravização do seu próprio povo. Como conseguem dormir à noite é coisa que não compreendo...

Precisamente por tudo o que acima foi dito, é que não percebo a actual rivalidade entre liberais e marxistas no campo da moral. Ambas as ideologias são responsáveis por escravatura e morte na ordem das centenas de milhões, isso mesmo, leram bem, centenas de milhões e o número continua a aumentar de dia para dia...

A batalha que se está hoje a travar em Portugal e na Europa contra o "sistema" é uma luta entre a escravatura e a Liberdade. É uma luta para que possamos preservar todas as conquistas sociais que foram arduamente conquistadas pelo proletariado nos últimos duzentos anos e que hoje uns reles ladrãozecos pimpões de fato e gravata nos querem roubar. Se isto não é uma causa pela qual valha a pena lutar, então não sei qual será.

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Notas:
[1] SOFOS - Sinificação. Link: http://sofos.wikidot.com/sinificacao
[2] VENNING, Annabel - Britain's child slaves: They started at 4am, lived off acorns and had nails put through their ears for shoddy work. Yet, says a new book, their misery helped forge Britain. 17 de Setembro de 2010. Link: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1312764/Britains-child-slaves-New-book-says-misery-helped-forge-Britain.html

João José Horta Nobre
Junho de 2015


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