sábado, 13 de junho de 2015

Por Um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados

"O Rapto de Europa", Adolf Münzer

  
"Amai a união e fugi das discórdias." - Santo Inácio de Antioquia

A grave e precária situação social, económica e geopolítica em que as nações europeias actualmente se encontram tem levado a uma crescente polarização que sinceramente me preocupa, por esta não ser propícia nem aos interesses, nem à estabilidade das nações europeias.

A actual Europa está dividida entre facções políticas que se encontram alinhadas ou com o eixo Washington/Bruxelas ou com o eixo de Moscovo que apesar de ser muito mais fraco e menos influente, não deixa de ser perigoso. 

Que fique claro de uma vez por todas, nem o eixo Washington/Bruxelas ou o eixo de Moscovo zelam minimamente pelos interesses da Europa ou nos querem ajudar seja de que forma for. Ambos possuem agendas ocultas e intentam alargar a sua influência e poder à custa das nações da Europa.

Deve por este mesmo motivo ser criado não apenas como alternativa à União Europeia, mas como movimento de resistência aos eixos referidos, um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados que sirva de frente comum a estes eixos anti-europa e que simultâneamente ofereça uma alternativa às pequenas nações europeias, que se vêem actualmente acossadas por imperialismos titânicos que em nada servem os nossos interesses comuns.

A Europa está hoje a ser balcanizada por colossos sem princípios sejam eles morais ou éticos. Não é possível que nações como Portugal possam sozinhas fazer frente a estes gigantes, é precisamente por este motivo que é absolutamente imperativo que se construa uma unidade europeia alternativa à actual União Europeia que não passa de uma entidade controlada por forças obscuras cujo comportamento é igual ao de qualquer organização mafiosa.

Um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados é por isso um imperativo no actual momento e que ninguém tenha dúvidas em relação ao quão importante é hoje a criação de um movimento deste teor como condição de sobrevivência não só das nações europeias, mas também da própria Civilização Ocidental que se encontra actualmente ameaçada pelo Hedonismo, sendo este por sua vez uma consequência directa de toda a irresponsabilidade política a que assistimos nas últimas décadas.

Não podemos negar que existem diferenças de mentalidade, barreiras linguísticas, diferenças entre concepções de vida e desenvolvimento que afastam pontualmente as nações europeias umas das outras, mas também é verdade que aquilo que nos une e aproxima é muito mais significativo do que aquilo que nos separa.

A Europa foi e será sempre o berço do Mundo Ocidental, trata-se de um facto que nenhuma força do Universo nos pode retirar. Durante séculos, foi na Europa que se centrou aquilo que de melhor o Mundo Ocidental tinha para mostrar e exibir. Mesmo após séculos de violentas disputas dinástico-familiares e posteriormente sangrentas guerras que resultaram de um Nacionalismo chauvinista, o sentimento de solidariedade e irmandade europeia manteve-se e até se fortificou. Os campos ensanguentados da Europa onde milhões dos nossos melhores perderam a vida em guerras fratricídas, devem de servir de exemplo e aviso às futuras gerações sobre os perigos de se seguirem políticas chauvinistas e de ter uma Europa polarizada por eixos sejam eles intra ou extra-europeus.

A Segunda Guerra Mundial ou a Segunda Guerra Civil Europeia como na realidade lhe deviam de chamar, foi muito provávelmente a maior catástrofe geopolítica que a Europa enfrentou desde a queda do Império Romano. Desta nefasta guerra saíram triunfantes duas super-potências que não tardaram a aproveitar-se da fraqueza das nações europeias exaustas pela guerra para levaram a cabo os seus próprios projectos imperialistas.

Os Estados Unidos, receosos do alastramento da influência soviética à Europa Ocidental, rapidamente perceberam que a melhor forma de travar o Comunismo era fomentando uma classe média forte e próspera. Foi precisamente aqui que entrou o Plano Marshall e a conjuntura de reconstrução da Europa tratou de garantir a tão necessária prosperidade económica para que os Estados Unidos não perdessem o controlo da situação na Europa Ocidental.

Os soviéticos, por sua vez, não desistiram de insistir no falido modelo económico socialista que tentaram a todo o custo e muitas vezes pela força, exportar para todo o Mundo. O resultado foi a escravização da Europa de Leste em nome de uma ideologia sem futuro e a destruição de milhões de vidas inocentes. 

A somar-se a isto tudo, tanto os Estados Unidos como a União Soviética fomentaram e apoiaram no pós-guerra os assim-chamados "movimentos de libertação" que na realidade nunca passaram de vassalos destas super-potências e que vieram criar muitos mais problemas do que aqueles que vieram resolver. Veja-se África hoje, dominada pela pobreza crónica, doenças, fome, guerra e cleptocracias. É esta a "libertação" de que gozam os povos africanos?

Os povos africanos saíram do domínio europeu sem estarem minimamente preparados para tal e todas as descolonizações sem excepção que se fizeram em África foram feitas de forma demasiado rápida, não se tendo tido o cuidado de garantir o funcionamento adequado das instituições nacionais e não se tendo em conta que muitas destas "nações", são na realidade nações artificiais, desenhadas a régua e esquadro pelos europeus, sendo por isso mesmo propícias a conflitos étnicos sem fim à vista.

O Mundo no qual vivemos hoje é um Mundo pós-europeu, mas isto não significa de forma alguma que tal seja o fim da Europa ou sequer das nações europeias. Mais do que nunca é hoje imperativo que estas se unam, pois está em causa a nossa própria sobrevivência como Civilização e forma de viver.

O actual momento é extremamente grave e ameaçador para todas as nações da Europa e resta pouco, muito pouco tempo para se conseguir inverter a situação de iminente colapso civilizacional para onde actualmente caminhamos a passos largos.

Um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados surge hoje como uma necessidade imperativa e este deve assentar em três polos:

  • Economia;
  • Defesa;
  • Política

As nações europeias são hoje vítimas de um verdadeiro vampirismo draconiano movido pelos mercados internacionais e estão a sofrer dos males inevitáveis acarretados pelo prosseguimento de políticas económicas assentes no anárquico
laissez faire, laissez aller, laissez passer

Quem beneficia com este estado de coisas é sempre e inevitavelmente a alta finança cujo centro nevrálgico se concentra em Wall Street. Um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados deve não só incentivar a um corte radical com estas entidades sinistras, como deve também fomentar a solidariedade entre as nações europeias de forma a que estas não fiquem abandonadas e sozinhas, à mercê destes autênticos parasitas de nações que são os assim-chamados "mercados".

A Federação Russa constitui uma ameaça infinitamente menor neste campo, mas mesmo assim é uma ameaça, especialmente para as nações do Leste da Europa a quem já lhes bastou vários séculos de ditadura tirânica, primeiro sob a bota dos czares e posteriormente dos bolcheviques. A Federação Russa, à semelhança dos Estados Unidos, julga que a Europa de Leste é propriedade sua e reage violentamente a qualquer interferência externa neste espaço geográfico. Esta situação é não apenas inadmissível, como insustentável.

A Europa de Leste não pertence à Rússia, nem aos Estados Unidos. Da mesma forma que a Europa Ocidental não pertence a nenhuma destas super-potências, mas sim aos povos que coabitam nestes territórios. 

Um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados deve ter uma política de defesa comum contra as ingerências e ameaças destas super-potências e deve ficar claro que tal deve ser sempre e apenas de carácter defensivo e não de carácter ofensivo. Ninguém no seu perfeito juízo pode desejar uma guerra seja contra os Estados Unidos ou contra a Rússia, mas deve também ficar claro que se estas super-potências nos agredirem, nós temos não apenas a capacidade adequada para nos defendermos, como para retaliar na medida em que julgarmos necessário.

As nações europeias devem de possuir uma capacidade de dissuasão militar forte o suficiente para garantir que nem a Rússia ou os Estados Unidos se irão aventurar em hipotéticas "intervenções" e no caso de o fazerem, pagarão um preço elevado por tal atrevimento. Tal só é possível no contexto de um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados que tenha uma componente dedicada à segurança e defesa comum. Nenhum País europeu pode enfrentar estas super-potências sozinho e tentar fazer tal irá resultar em inevitável desastre...

É precisamente aqui que um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados assume também o carácter de ser uma clara alternativa à NATO e tal como a NATO, este a ser constituído deve considerar o ataque contra uma Nação, como sendo um ataque contra todas. 

Em termos políticos e tendo em conta que tudo o que acima se disse já constitui política, um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados não deve ser um organismo equiparável à União Europeia, pois se tal ocorrese, o seu propósito inicial seria inevitávelmente deturpado para o negativo. Um Movimento assim, a ser construído, deve servir precisamente para garantir a independência das nações europeias e o fortalecimento do seu carácter, da sua moral e da sua integridade nacional. Não se trata de querer ostracizar a Rússia ou os Estados Unidos, antes pelo contrário, deve-se procurar ter boas relações com estes países, mas sempre deixando claro que na nossa casa mandamos nós e não o Kremlin ou Washington.

Antes de terminar quero deixar uma última palavra sobre a "questão alemã" e a "questão russa". A Alemanha é hoje a mais poderosa e importante Nação europeia, esta tem por isso um inegável papel de liderança na Europa e deve assumi-lo, mas sempre respeitando a soberania das restantes nações e nunca esquecendo, por experiência própria, que a liderança incapaz pode conduzir a desastres como o que esta já vivenciou em 1945.

Quanto à Rússia, esta em larga medida também é uma Nação europeia, apesar de muitos a excluírem automaticamente da Europa, algo errado a meu ver. A Rússia deve ser convidada a integrar um hipotético Movimento Europeu dos Países Não Alinhados e este, no caso de a mesma aceitar o convite, teria obviamente de mudar de nome. Um Movimento Europeu dos Países Não Alinhados, a ser erguido, não deve ser um fim em si mesmo, mas apenas uma organização que ajude a garantir a segurança da Europa e a sua capacidade de auto-defesa.

João José Horta Nobre
Junho de 2015


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