segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Salazar Não Era Monárquico

Salazar com a fotografia autografada de Mussolini sobre a sua secretária.


"Temos de... venerar o Estado como sendo a manifestação do Divino sobre a Terra." - Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 - 1831)

Profundamente Hegeliano no seu pensamento, o professor Salazar foi acima de tudo isso mesmo: um Hegeliano. Para um Hegeliano não interessa se quem está no poder é um Rei ou um Presidente, mas sim um absolutista prático que consiga concentrar em si o máximo de poder com o fim último de organizar o Estado e manter a sua gerência. 

Hegel concebeu e aprofundou de forma bastante vasta o conceito do Estado Total, ou Super-Estado, se assim lhe quiserem chamar. Todas as ditaduras estadistas e por norma uma ditadura é sempre estadista, obedecem à filosofia Hegeliana da primazia do Estado, ou seja, do colectivo sobre o indivíduo. Esqueçam Marx e Mussolini, Hegel foi o verdadeiro grande teórico do Totalitarismo e a sua concepção de Estado como um ente quasi divino lançou as bases do modelo de sociedade que posteriormente Karl Marx e Mussolini vieram a propôr.

Mussolini foi um Hegeliano, da mesma forma que Lenine, Hitler, Mao Tsé-Tung, Saddam Hussein, Gaddafi, Pol Pot, Ho Chi Minh, Estaline, etc... foram todos hegelianos conscientes ou inconscientes. Salazar foi indubitavelmente o mais "suave" destes todos, disso não restam dúvidas, mas ninguém pode negar que este era à sua maneira um seguidor fiel da velha máxima hegeliana de Mussolini: "Tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado".

Aliás, Salazar teve durante muito tempo em cima da sua secretária a fotografia de Mussolini que segundo consta, terá sido autografada pelo próprio ditador italiano. Isto não foi uma coisa ao acaso ou uma mera coincidência e muito menos um "facto secundário" como alguns pretendem, mas sim, algo de muito revelador sobre o verdadeiro pensamento político-ideológico de Salazar.

Repare-se que o professor Salazar podia ter optado por ter na secretária a fotografia do Papa, do herdeiro do trono de Portugal, de um Rei passado ou presente ou de outra personalidade qualquer, mas optou pela de Mussolini e isto não foi ao acaso, da mesma forma que fazer a saudação romana nas cerimónias oficias também não era um acaso, tal como também não foi ao acaso que o seu regime adoptou o Corporativismo como modelo-base económico e político, que (vejam bem a coincidência!) era exactamente o mesmo modelo que Mussolini colocou em prática na Itália Fascista. 


Salazar faz a saudação romana numa cerimónia oficial, algures na década de 1930.


Salazar poderá até ter sido um monárquico na sua juventude,  mas é desonesto do ponto de vista intelectual negar a sua paixão posterior pelo Fascismo Italiano - uma ideologia hegeliana por excelência - mesmo que o próprio nunca o tenha admitido abertamente. Isto aconteceu pelo simples motivo de que nas décadas de 1920-1930 poucos acreditavam que o futuro estivesse nas democracias liberais ou nas monarquias. O futuro parecia que iria em tudo ser totalitário e que o Mundo acabaria dividido entre fascistas e comunistas, que inevitavelmente lutariam entre si pelo domínio de cada vez mais território. Salazar obviamente que não ficou imune a este pensamento da época.

Mas também não se pode considerar o professor Salazar como tendo sido um líder fascista na verdadeira acepção do termo, pois o seu regime apesar de ditatorial, ficou muito aquém disso. A tão badalada "Revolução Nacional" prometida em 1926, foi travada pela intelligentsia católico-conservadora do regime que sempre temeu a palavra "Revolução", O Corporativismo como modelo-base económico e político acabou por ser gradualmente abandonado a partir da década de 1950, a saudação romana deixou de ser vista nas cerimónias oficiais após 1945, de forma a permitir uma estratégica aproximação do regime às democracias liberais que saíram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial e a fotografia de Mussolini acabou por ser retirada da secretária de Salazar pelo próprio ditador que num triste acto de traição aos seus próprios princípios político-ideológicos, chegou a prometer "eleições tão livres como na livre Inglaterra".

Por isto tudo é que considerar Salazar um monárquico é um erro crasso e muito comum, mas compreensível, pois este foi, de facto, monárquico na juventude e rodeou-se de inúmeros monárquicos, algo que lhe conferiu uma aura de Estadista favorável à causa monárquica, mas é preciso não esquecer: foi a foto de Mussolini - um ex-comunista convertido à causa do Nacionalismo Revolucionário - e não a do herdeiro do trono de Portugal, que Salazar optou por ter na sua secretária e isto diz tudo. 

João José Horta Nobre
28 de Dezembro de 2015

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