segunda-feira, 14 de março de 2016

Quando Ainda se Fazia Televisão em Portugal


O mais glorioso trio televisivo de sempre, Átila, Rocha e Tino em "Duarte & Companhia".


Sempre transmitiu muita merda, é certo, e programas excessivamente deprimentes que muito infernizaram os fins-de-semana, especialmente os domingos, do pessoal da minha idade e mais velho, que nos anos setenta e oitenta não tinha alternativas para consolar a mente no último dia de folga antes de mais uma semana de aulas, porrada e chatices diversas.
 

Não se poderiam esquecer as monumentais secas que aos domingos à tarde foram metidos pelos olhos adentro do pessoal por obra de Júlio Isidro e Luís Pereira de Sousa; ou os desagradabilíssimos desenhos animados de leste criativamente feitos à base de plasticinas em movimento, «maravilha» que o falecido Vasco Granja, ele próprio militante do PCP, espetava nos ecrãs, anunciando-as com aquele sorriso invariável de grande amigo das crianças que, segundo ele dizia, adoravam as cagadas que ele trazia de além da cortina de ferro.
 

Outra grande nódoa da RTP, esta mais grave, foi a popularização das telenovelas brasucas em Portugal. Numa época em que não havia alternativa televisiva para a esmagadora maioria da população portuguesa - só a gente das raias é que podia ver a televisão espanhola - a emissora nacional poderia ter habituado os paladares a coisas de melhor qualidade, ou pelo menos ao produto nacional, mesmo que fosse mais caro, uma vez que possuía evidentemente o monopólio dos horários nobres. Mas não - foi telenovela em cima de telenovela a partir das oito da noite ou assim, a hora em que toda a gente está em casa a jantar e a olhar para o que quer que esteja a passar pelo chamado pequeno ecrã. Depois, quando a SIC apareceu, já tinha feita metade da papa, visto que o seu contrato com a rede Globo brasuca lhe deu, logo à partida, a fatia dominante do horário nobre num país em que a população estava infelizmente viciada em anos de telenovela com sabor tropical.

Merecem referência os nomes de séries, com carne e osso ou de desenhos feita, que acompanharam a infância e a maturidade de milhares, milhões por este País fora: Sandokan, Tarzan, O Sr. Feliz e o Sr. Contente, O Planeta dos Macacos, Espaço 1999, Blake's 7, Battlestar Gallactica, Benny Hill, os festivais da Eurovisão («Menina do Alto da Serra», a melhor de sempre, digo eu), os anúncios (o meu favorito de sempre, «WC Pato»), Buck Rogers No Século XXV, Heidi, Abelha Maia, Homem-Pássaro, Fantasma do Espaço, Esquadrão de Ataque Espacial, Eu Show Nico, EuroNico, Guilherme Tell («Crossbow»), Monty Python Flying Circus, The Goodies, O Tal Canal, As Fabulosas Aventuras do Barão de Munchausen (pouca gente se lembra disto em desenhos animados), Hermanias, Era Uma Vez o Espaço (com um estranhíssimo genérico cantado pelo Paulo de Carvalho, eu nunca percebia como é que uma série em que os heróis eram polícias espaciais podia dizer na sua música que «lá em cima já não há sentinelas»...), V - Batalha Final, Homem-Aranha, Doutor Faísca, Flash Gordon, «1,2,3», The Sweeney, e mais uma enxurrada de séries, e de filmes, portugueses e não só, e outras produções, alojadas para sempre algures em tranquilos e inofensivos cantos da memória, incluindo a mais magnífica das produções de todos os tempos, toda feita pela RTP, Duarte & Companhia, em cuja constelação de ricas personagens se incluía o mais glorioso trio televisivo de sempre, Átila, Rocha e Tino»

Houve um tempo em que se fazia realmente televisão genuína em Portugal e a selecção do que passava no "pequeno ecrã", era claramente muito superior à de hoje do ponto de vista qualitativo. Desde o início da década de 1990, que a televisão em Portugal começou a perder imaginação e o hiper-materialismo dos anos 1990 - a melhor década que o Capitalismo alguma vez teve - levou a que a mesma se transformasse num mero instrumento de repetição e difusão de clichés artificiais e tendências impostas de cima para baixo. Nos anos 2000, esta decadência televisiva apenas se agravou com a entrada em cena dos reality shows e uma postura cada vez mais politicamente correcta, por parte de quem produz os conteúdos televisivos. Não serão estranhos a este fenómeno de degradação, a presença e o peso cada vez maior de certos lobbies no seio das nossas "elites" culturais. 

A televisão em Portugal (e não só...) deixou de conseguir pensar e fazer pensar. Deixou de ser original e criativa, acima de tudo, deixou de conseguir fazer as pessoas sonharem. Actualmente, funciona mais como um instrumento de propaganda da Nova Ordem Mundial, do que outra coisa qualquer. 

João José Horta Nobre
14 de Março de 2016
 

1 comentário:

  1. Por falar em nova ordem mundial http://ocultorevelado.webnode.pt/nova-ordem-mundial/

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