segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pode-se Abolir o Salário Mínimo? II


A esta afirmação eu tenho duas perguntas a colocar:

1º - Partindo-se do princípio de que uma economia saudável, depende necessariamente de uma cultura saudável, alicerçada na ética, pode-se considerar como sendo ético que um patrão ganhe 100 vezes mais do que o operário?

2º - O operário pode-se apaixonar, casar, ter filhos, etc... mas se o operário auferir o salário mínimo português que ronda pouco mais de 500 euros mensais, como é que esse mesmo operário vai alguma vez conseguir ser a "segurança" da família?... 

Chesterton, já deu, de facto, a resposta a tudo isto em 1911:

«Um homem honesto apaixona-se por uma mulher honesta; ele quer, por isso, casar-se com ela, ser o pai dos seus filhos, e ser a segurança da família.
Todos os sistemas de governo devem ser testados no sentido de se saber se ele pode conseguir este objectivo. Se um determinado sistema — seja feudal, servil, ou bárbaro — lhe dá, de facto, a possibilidade da sua porção de terra para que ele a possa trabalhar, então esse sistema transporta em si próprio a essência da liberdade e da justiça.
Se qualquer sistema — republicano, mercantil, ou eugenista — lhe dá um salário tão pequeno que ele não consiga o seu objectivo, então transporta consigo a essência de uma tirania eterna e vergonha».
G. K. Chesterton, “Illustrated London News”, Março de 1911.

Um sistema político-económico que oferece a um trabalhador um salário tão miserável, que faz com que este não consiga garantir o seu objectivo, ou seja, a segurança da sua família, "transporta consigo a essência da tirania eterna e vergonha".  É ou não é exactamente isto que se passa hoje com o modo de produção capitalista?!?

Perante a concorrência das economias emergentes, a única solução que a burguesia europeia tem, é a de levar a cabo uma contracção salarial, de forma a reduzir os seus custos de produção e aumentar assim o potencial exportador. Isto e como eu já disse em escritos anteriores, não é solução para nada e no fundo, não passa de cuidados paliativos para a economia, pois nada consegue travar a queda tendencial da taxa de lucro, desde sempre inerente ao modo de produção capitalista. 

À medida que os lucros da burguesia vão caindo tendencialmente, esta reage sempre cortando nos custos de produção, o que implica cortes de salários, despedimentos e no limite, falências ou deslocalização de empresas.  A única solução viável para isto é uma nova grande guerra. Sem guerra, o "sistema" ficará perpétuamente em crise, desprovido de crescimento económico como é o caso daquilo a que já estamos a assistir na Europa e mergulhado num pântano de frustração social, que mais tarde ou mais cedo, redundará em revoltas e/ou revoluções violentas. A Segunda Guerra Mundial foi a solução encontrada para se poder sair da última grande crise do Capitalismo (iniciado com o crash de 1929...) e hoje, o modo de produção capitalista enfrenta uma nova crise de grandes proporções, que tal como a de 1929, não poderá ser ultrapassada sem uma nova grande guerra. 

Isto é o que dá vivermos num sistema económico baseado no lucro. Quando falta esse mesmo lucro, é game-over. Até hoje não se conseguiu encontrar uma solução viável para isto, já se ensaiou o Socialismo e esse sistema provou ser incompetente. Ora, como não é viável, nem possível e nem sequer desejável, fazer-se um regresso ao Feudalismo, resta optar por continuar a viver na loucura capitalista ou então, encontrar-se um novo paradigma económico (algo sempre e necessariamente dependente de um novo paradigma político), que permita acabar de vez com esta loucura de Mundo em que vivemos. No fundo, o maior problema é conseguir satisfazer a infinita ganância dos homens, com os limitados recursos de que dispomos neste planeta.

João José Horta Nobre
2 de Maio de 2016

15 comentários:

  1. "Pode-se Abolir o Salário Mínimo? II"

    Caro JJHN


    Sim, apenas depende de vontade política, além disso, não existe salário mínimo em vários países.


    "Chesterton, já deu, de facto, a resposta a tudo isto em 1911:"


    Desde 1911 até agora muita coisa mudou, ainda existem operários, mas estes simplesmente já não são parte significativa da força de trabalho, simplesmente foram substituídas por máquinas ou robots.


    "Um sistema político-económico que oferece a um trabalhador um salário tão miserável"

    Não são os sistemas políticos-económicos que oferecem salários aos trabalhadores, são as entidades patronais.


    "Perante a concorrência das economias emergentes, a única solução que a burguesia europeia tem, é a de levar a cabo uma contracção salarial, de forma a reduzir os seus custos de produção"

    É falso que seja a única solução:

    - pode optar por deslocalizar a produção
    - pode optar por mudar o sector de negócio em que opera
    - pode optar por encerrar o negócio
    - pode optar por inovar de modo a melhorar a produtividade
    - etc.


    "Isto é o que dá vivermos num sistema económico baseado no lucro. Quando falta esse mesmo lucro, é game-over."

    É o sistema que nos tem garantido bens e serviços em abundância, a preços relativamente acessíveis, tem gerado riqueza, empregos e oportunidades.

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    1. «Não são os sistemas políticos-económicos que oferecem salários aos trabalhadores, são as entidades patronais.»

      A entidade patronal só faz o que o sistema político-económico a deixa fazer.

      «É falso que seja a única solução:

      - pode optar por deslocalizar a produção
      - pode optar por mudar o sector de negócio em que opera
      - pode optar por encerrar o negócio
      - pode optar por inovar de modo a melhorar a produtividade
      - etc.»

      Se ler o meu artigo com mais atenção, verá que eu falei lá de algumas dessas medidas.

      «É o sistema que nos tem garantido bens e serviços em abundância, a preços relativamente acessíveis, tem gerado riqueza, empregos e oportunidades.»

      Eu nunca disse o contrário! O problema é quando entra em crise...

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    2. Caro JJHN


      Isto não é nenhuma crise, são apenas as consequências de se gastar mais do que se recebe e de querer continuar a fazer o mesmo. Não fazem nenhuma reforma estrutural para corrigir a situação, apenas pequenos ajustamentos.

      Crise mesmo é quando os credores abrirem os olhos e deixarem de financiar o país, aí é preciso tomar medidas mais duras.

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    3. «Isto não é nenhuma crise, são apenas as consequências de se gastar mais do que se recebe e de querer continuar a fazer o mesmo. Não fazem nenhuma reforma estrutural para corrigir a situação, apenas pequenos ajustamentos.»

      Mesmo que neste momento o Estado deixasse de cobrar impostos por completo às empresas, isso não ía adiantar de nada, pois a queda tendencial da taxa de lucro é imparável.

      Podem até aplicar cuidados paliativos como esse de reduzir a carga fiscal, ou até eliminá-la em muitos casos, mas os efeitos serão apenas temporários na economia e não tardará para que a queda tendencial da taxa de lucro, faça sentir novamente os seus efeitos negativos sobre o modo de produção capitalista.

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    4. "Mesmo que neste momento o Estado deixasse de cobrar impostos por completo às empresas"

      Caro JJHN


      O principal imposto (imposição) é a própria existência do salário mínimo, depois vêm as leis laborais e todos os descontos para o sistema de segurança social.

      Os impostos propriamente ditos são pequenos comparados com o que mencionei acima.

      Basicamente as reformas estruturais que defendo não passam duma brutal diminuição de impostos.

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    5. «O principal imposto (imposição) é a própria existência do salário mínimo, depois vêm as leis laborais e todos os descontos para o sistema de segurança social.»

      Porque é que o Arquivista quer abolir o salário mínimo?

      Se o objectivo é pagarem mais às pessoas, então não é necessário abolir o salário mínimo. Portanto, só posso concluir que toda essa vontade em abolir o salário mínimo, é para pagar ainda menos às pessoas.

      Ora, o salário mínimo em Portugal é de 530 euros por mês. O Arquivista alguma vez tentou viver um mês com esse valor?

      Eu posso-lhe garantir, se o salário mínimo for abolido, vocês vão levar a extrema-esquerda ao colo para o poder e ainda mais rápido do que pensam, porque em Portugal nem sequer existe uma direita nacionalista capaz de fazer frente à extrema-esquerda nas ruas.

      Os liberais vão ficar sozinhos e por conta própria à mercê dos esquerdistas, é nisto que dá terem passado os últimos 42 anos a literalmente "lamberem o rabino" a essa gente e terem desprezado a oposição nacionalista.

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    6. Caro JJHN


      Não existe objectivo de aumentar ou diminuir salários, é um assunto exclusivo entre entidade patronal e trabalhador. Qualque patrão irá querer pagar sempre o menos possível e qualquer trabalhador irá querer receber sempre o mais possível.

      Objectivos:

      - Atracção de mais investimento, tanto nacional como estrangeiro
      - Fomento do empreendedorismo
      - Fomento da passagem de mais trabalhadores para empreendedores
      - Praticamente eliminação do desemprego
      - Maior competitividade das empresas
      - Fomento de actividades que não conseguiam ser rentáveis com a existência de salário mínimo, nomeadamente no sector Primário
      - Maior abundância e embaratecimento de alimentos
      - Maior captação de receita fiscal sem aumento da carga fiscal
      - Maior probabilidade de correcção dos défices orçamentais
      - Repovoamento do interior
      - Diminuição da pressão populacional nas cidades e litoral
      - Mais pessoas ocupadas (trabalho ou empreendedorismo) diminui a probabilidade de crimes
      - Diminuição da pressão migratória de refugiados económicos

      etc.

      Não chega só esta medida, as duas seguintes que tenho vindo a mencionar são também cruciais e devem ser tomadas ao mesmo tempo: liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos.

      Outras seguintes são também importantes.


      E obviamente o desmantelamento das bases de sustentação da esquerda.


      São medidas que dependem da vontade política mas caso não haja vontade política para isso, resta esperar pelo aumento da pressão financeira de modo a que haja ajustamentos.


      Quanto à decisão dos eleitores compete exclusivamente a eles mas posso garantir-lhe que o Estado a continuar a gastar mais do que recebe, a pressão financeira irá continuar a aumentar de forma cadavez mais significativa.

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    7. Mas não respondeu à minha pergunta. Volto a insistir, a abolição do salário mínimo, tem ou não tem como objectivo pagar um salário inferior aos 530 euros actuais?

      Não consigo ver outra lógica por detrás dessa intenção em abolir o salário mínimo, a não ser a de quererem pagar ainda menos aos trabalhadores...

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    8. Caro JJHN

      Não tem esse objectivo, mas no curto prazo provavelmente teria essa consequência, pois desempregados não faltam, por isso, apenas essa medida isolada não alteraria rapidamente a situação económica, mas conjugada com outros aumentaria a rapidez das mudanças.

      É que o aumento do investimento simplesmente não é imediato, há muitos mercados sequiosos de investimento e competem entre si por uma fatia do bolo.

      De qualquer maneira, sempre pode comparar com a Venezuela que ainda agora aumentou o salário mínimo, de pouco servirá, praticamente há pouca comida disponível no mercado.

      Se aumentar o salário mínimo fosse mesmo bom qualquer governo tomaria essa medida e não seriam aumentos ligeiros; administrativamente poderíamos ter o salário mínimo mais elevado do Mundo, simplesmente praticamente todos estaríamos desempregados.


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    9. Eu compreendo perfeitamente a lógica de diminuir o salário mínimo. Compreendo e sei que quanto mais baixo o mesmo for, mais fácil é atrair investimento.

      O problema é que isso, num País como Portugal, é uma autêntica espada de dois gumes, pois levar a cabo tal política, conduziria a um reforço imediato da extrema-esquerda a não ser que se pudesse diminuir o custo de vida, de forma a acompanhar essa mesma diminuição do salário mínimo.

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    10. Caro JJHN


      Só conseguiremos baixar o custo de vida com a baixa real (não subsidiada) dos custos de produção, de transporte, etc, e com o aumento da concorrência, isso exige reformas estruturais rápidas, para não mencionar imediatas.

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    11. E não esquecer os lobbies, e preciso também acabar com os muitos lobbies que por aí existem.

      Mas por exemplo, o que faria o Arquivista, quando em tomando as suas medidas estruturais, os sindicatos, que todos sabemos serem correias de transmissão da extrema-esquerda, parassem o País?...

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    12. Caro JJHN


      Absolutamente nada, se não trabalham também não recebem, além disso, com uma eventual liberalização dos despedimentos, os gestores certamente iriam optar por os mandar embora e chamar quem esteja disposto a trabalhar.

      Os governos estão no poder para trabalhar e tomar as melhores medidas e não para engonhar.

      Eventuais manifestações, seriam sempre de curta duração, afinal é preciso comer, beber e ir à casa de banho, pagar as contas e cuidar dos filhos, além disso, teríamos os sindicalistas e outros esquerdistas no sítio adequado (em vida) que é na rua e não no poder e, de preferência, a levar um ou outro jacto de água ou mesmo uma carga da brigada de choque que até serviriam para animar a comunicação social.

      Na Grécia também andaram a fazer umas manifestações e "no pasa nada", a vida continua e a austeridade também.

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  2. Por acaso já se questionarem do porquê as grandes empresas e os governos esquerdistas frequentemente se encontrarem unidos? Uma pergunta mais profunda será: "Porque é que a direita política e os partidos esquerdistas aparentemente são incapazes ou relutantes de fazer alguma coisa contra a imigração em massa para os países do Ocidente?"


    Estas perguntas são respondidas no excelente livro de Kerry Bolton com o nome de ‘Babel, Inc: Multiculturalism, Globalisation, and the New World Order’. O que eu acho de mais valioso no livro de Bolton é a forma como ele demonstra o falhanço dos partidos esquerdistas de proteger os seus principais constituintes da competição económica e da desarticulação causadas pela imigração em massa.

    Longe de serem os defensores naturais da classe operária, os actuais partidos esquerdistas estão unidos com as forças da globalização e do Grande Capital, que nada se preocupam com o impacto negativo da imigração em massa na sociedade anfitriã, já para não falar do nada que eles protegem a classe operária (a facção social mais afectada pela imigração em massa e pela desarticulação).

    Ironicamente, os trabalhadores naturalmente correm para os braços dos partidos esquerdistas esperando que estes protejam os seus interesses económicos, só para descobrirem que estes partidos, e sem buscarem o consentimento da classe operária, apoiam políticas que diminuem os ordenados e transformam as comunidades. - See more at: http://omarxismocultural.blogspot.pt/2015/09/marxismo-e-o-capitalismo-juntos.html#sthash.plFYg3Ci.dpuf

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    1. «Por acaso já se questionarem do porquê as grandes empresas e os governos esquerdistas frequentemente se encontrarem unidos? Uma pergunta mais profunda será: "Porque é que a direita política e os partidos esquerdistas aparentemente são incapazes ou relutantes de fazer alguma coisa contra a imigração em massa para os países do Ocidente?"


      Estas perguntas são respondidas no excelente livro de Kerry Bolton com o nome de ‘Babel, Inc: Multiculturalism, Globalisation, and the New World Order’.»

      Essa questão já foi estudada há muitos anos atrás por um senhor chamado Antony C. Sutton:

      http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/08/wall-street-revolucao-bolchevique-e.html

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