Na imagem pode ver-se o centro financeiro de Tóquio. Na maior parte da Ásia, o caminho das políticas económicas tem sido na
direcção de maior liberdade nos mercados financeiros e um comércio mais aberto.
O “capitalismo
asiático”, imbuído de valores tradicionais, sempre deu prioridade à criação e manutenção de emprego e é neste âmbito que o
Ocidente mais tem a aprender com a Ásia.
"Não interessa se o gato é amarelo ou preto, o que interessa é que ele consiga caçar os ratos". - Deng Xiaoping (1904 - 1997) em 1962, num discurso proferido numa reunião do Secretariado; na verdade é um provérbio Sichuan.
A
Ásia é hoje a região económica do mundo que está a crescer mais rapidamente e em
termos de GDP per capita, os territórios
mais prósperos da Ásia estão localizados no extremo oriente.
É mais do que óbvio nos dias que correm, que enquanto o Ocidente asfixia
debaixo de uma crise económica gravíssima, a Ásia continua a viver um autêntico
boom económico.
Tanto
os Estados Unidos como a Europa estão a braços com dívidas tremendas,
desemprego galopante e falta de competitividade, porém, se analisarmos as
economias da Ásia, em termos gerais estas não demonstram praticamente nenhum
abrandamento face à crise actual e as empresas sediadas em nações asiáticas
estão cada vez mais poderosas e dominantes no palco mundial. A Ásia vive hoje
dias de glória económica e é mais do que claro que a crise económica actual, ao
contrário do que muitos afirmam, não é uma crise mundial, mas sim, uma crise do
Ocidente.
Muitos
economistas asiáticos já falam abertamente da “superioridade asiática” em
termos económicos e aconselham os ocidentais a acordar de vez e começar a
aprender com a Ásia.
É mais do que óbvio que algo no Ocidente tem de mudar a médio/longo prazo, pois
estamos claramente a “perder o comboio” em relação à Ásia e
obviamente que a melhor estratégia para a mudança é começando primeiro por
observar as melhores políticas e modelos económicos que actualmente são praticados nessa mesma região.
Durante
décadas, o Ocidente deu lições à Ásia em termos económicos e podem ter a
certeza que os asiáticos aprenderam as suas lições muito bem.
Hoje, é hora do Ocidente perder a sua tradicional arrogância típica das potências
ex-colonizadoras (o caso da Europa) e começar a recolher aquilo que a Ásia tem de melhor para nos
ensinar.
O Ocidente não pode continuar a dormir se quiser manter a sua independência económica face ao poderio económico-militar asiático.
Kishore
Mahbubani, professor na Universidade Nacional de Singapura afirmou recentemente
que:
“É possível que já tenha chegado o tempo
em que os asiáticos agradecerão reciprocamente ao Ocidente o facto de estes
terem partilhado o capitalismo com a Ásia. Os políticos e pensadores ocidentais
devem de ser convidados a visitarem os complexos industriais e as indústrias de
serviços do Japão e da Coreia, Taiwan e China, Hong Kong e Singapura. Poderá
haver aqui algumas lições valiosas a serem aprendidas.”
Que
lições são estas de que Mahbubani nos fala? Será que o segredo da salvação do
Ocidente reside mesmo no sempre místico e exótico Oriente?
Este
argumento de que o Oriente tem muito para nos ensinar em termos económicos já
não é novo. Em 1979, Ezra Vogel defendeu no seu livro Japan As Number One: Lessons For America, que os Estados Unidos
tinham de aprender com a economia japonesa de forma a não ficarem para trás no
jogo mundial de nações em competição económica.
A
vantagem dos asiáticos começa logo no campo da educação,
pois está mais do que demonstrado que os alunos asiáticos por norma têm
resultados escolares muito superiores aos obtidos no ocidente. As escolas
asiáticas destacam-se pelos rígidos hábitos de trabalho que impõem aos seus
alunos e pela sua alta exigência. Este sistema de ensino tem produzido alunos
altamente disciplinados e híper-bem preparados em comparação com o aluno médio
típico da Europa ou dos Estados Unidos.
Em
contrapartida, no Ocidente as últimas décadas têm visto um alastrar do
facilitismo nas escolas, fruto de políticas educativas erradas e o resultado
está à vista. Os melhores matemáticos, engenheiros, arquitectos e cientistas
estão hoje na Ásia. O cinema asiático tem cada vez mais força no mercado
mundial e as empresas asiáticas estão cada vez mais agressivas. Nada consegue
já travar o dragão asiático, a Ásia veio verdadeiramente para ficar.
O
Oriente oferece valiosas lições não apenas a nós ocidentais, mas também aos
países mais pobres e miseráveis do mundo. As nações do terceiro mundo só têm a
ganhar em observar atentamente as nações do extremo oriente
(que também eram extremamente pobres há apenas algumas décadas atrás) e
aprender com elas. Não basta ser-se capitalista, é necessário saber ser-se
capitalista e o know how para isso
por vezes é algo que leva décadas a absorver.
Por sua vez, os
políticos ocidentais que actualmente andam à deriva sem saber que direcção
tomar, só beneficiariam se lessem Os
Diálogos de Confúcio, a antiga sabedoria chinesa contém valiosas lições que os ocidentais não podem de forma alguma menosprezar, ainda para mais no actual contexto de superioridade económica chinesa.
Antes
de
ir mais longe, convém definir aquilo que podemos entender por
“capitalismo asiático”. Muitos analistas económicos cometem actualmente o
grave
erro de por vezes afirmar que todos os países asiáticos têm seguido
políticas
económicas iguais. Isto é obviamente falso, no entanto, há quatro
características
comuns às economias asiáticas que lhes conferem uma particularidade
única no
mundo:
1º - Os políticos asiáticos não confiam
no “laissez-faire, laissez-passer” e estão muito mais dispostos do que os
políticos ocidentais a intervir directamente na economia dos seus países.
Alguns exemplos destas intervenções directas na economia são a definição de
políticas industriais e o controlo das taxas de juro e das taxas de câmbio.
2º - Os governos asiáticos têm recusado
até agora implantar os vastos programas de apoio social que dominam em muitos
países europeus. Os países europeus para sustentarem os seus imensos
estados-providência necessitam de ter economias muito dinâmicas e uma população
jovem, algo que a Europa neste momento claramente não tem. Os asiáticos apenas recentemente começaram a criar estruturas de apoio social mais completas, pois só agora as
suas economias o começaram a permitir. Sem economia, não há estado-providência.
3º - Todas as economias asiáticas são
obcecadas com as exportações.
4º - As políticas económicas asiáticas
têm tendência a favorecer a indústria em lugar dos serviços e o investimento em
vez do consumo como formas de promover o crescimento económico.
Como
é que este “capitalismo asiático” pode salvar o Ocidente? O professor
Mahbubani considera que o Ocidente tem de adoptar urgentemente uma atitude de
maior intervenção dos governos nas economias como forma de atingir melhores
resultados. Os políticos ocidentais têm de perder o seu dogma ideológico de
julgar que os mercados só por si resolvem os problemas e apostar mais na
intervenção estatal directa na economia quando é necessário.
Segundo
Mahbubani:
“O primeiro erro do Ocidente foi ter
considerado o capitalismo como um bem ideológico e não como um instrumento
pragmático para melhorar o bem-estar do ser humano. Alan Greenspan foi provavelmente
a maior vítima desta convicção ideológica de que os mercados sabem sempre o que
é melhor… O Sr. Greenspan acreditava que os agentes dos mercados são mais
inteligentes do que a regulação dos governos e isso levou a que ele não
regulasse os mercados de forma severa…
No entanto, nenhuma sociedade asiática,
nem sequer o Japão, caiu vítima desta convicção ideológica. Os asiáticos
acreditam que nenhuma sociedade pode prosperar sem boa governação… Para que o capitalismo
possa funcionar bem, os governos têm de ter um papel essencial de regulação e
supervisão da economia.”
Portanto
coloque-se a pergunta: será a regulação estatal de facto o motivo que está a
fazer com que as economias asiáticas ultrapassem as do Ocidente?
Na China, o
Estado tem levado a cabo uma forte regulação do sector financeiro, porém, esta mesma regulação estatal
constitui a médio/longo prazo um risco para a saúde do sector bancário chinês e os políticos chineses têm consciência disso.
De facto, não há provas nenhumas que sustentem que a intervenção do Estado na
economia é a razão de ser do boom económico da Ásia.
Na
prática, o motivo que levou as economias asiáticas a resistirem tão bem à
actual crise do sector financeiro foi o facto de os bancos asiáticos terem desde o
início evitado mexer no “lixo tóxico” que arruinou tantos bancos nos
Estados Unidos e na Europa. Os banqueiros asiáticos neste aspecto foram e têm
sido muito mais responsáveis e éticos do que os seus colegas europeus e
americanos e o resultado está à vista.
Muitos
empresários asiáticos queixam-se dos obstáculos inconvenientes que a
regulação estatal lhes traz e quando vistos os factos mais a fundo, é difícil sustentar
a tese de que a regulação estatal só por si é responsável pela força das
economias orientais.
De
acordo com Michael Schuman, muitos analistas têm exagerado o papel do Estado
nas economias asiáticas. Em 2009, no seu livro, The Miracle: The Epic Story of Asia’s Quest For Wealth, Schuman
advoga que as verdadeiras causas do crescimento económico asiático têm sido a
iniciativa privada, o comércio livre e o empreendedorismo, ao invés da
regulação estatal.
É
inegável que a intervenção estatal teve um papel importante no arranque das
economias asiáticas e algumas políticas industriais ajudaram a desenvolver
determinados sectores.
Porém, a intervenção do Estado na economia é sempre uma espada de dois gumes
que pode criar tanto o sucesso como o desastre absoluto.
As
crises económicas que o Japão e a Coreia do Sul enfrentaram no passado, têm as
suas raízes na intervenção burocrática do Estado na economia e a manipulação da
economia levada a cabo actualmente pelo governo chinês está a criar o terreno
fértil para um crise económica chinesa dentro de alguns anos, isto caso nada seja
feito para inverter o rumo da actual situação.
De
facto, na maior parte da Ásia, o caminho das políticas económicas tem sido na
direcção de maior liberdade nos mercados financeiros e um comércio mais aberto.
A Ásia está actualmente a usar as forças dos mercados para corrigir as
distorções provocadas pelas intervenções do Estado na economia e não o
contrário.
O professor Mahbubani
argumenta que o “capitalismo asiático” tem feito um melhor trabalho a proteger
trabalhadores e promovendo a igualdade do que o capitalismo do Ocidente:
“Os governos asiáticos lutaram contra o
desemprego criando esquemas de incentivo para promover o investimento e o
emprego. Os governos ocidentais desprezaram sempre esta política por
considerarem-na uma “política industrial”. Enquanto os trabalhadores do Ocidente
sofrem, os capitalistas [do Ocidente] respondem que “os mercados é que sabem o
que é melhor.” É possível que já tenha chegado o tempo para o Ocidente aprender
com a Ásia a gerir os desafios existenciais do sistema capitalista.”
O “capitalismo
asiático” sempre deu prioridade à criação e manutenção de empregos e é neste âmbito que o
Ocidente mais tem a aprender com a Ásia.
Quando as coisas correm mal numa
típica empresa asiática, a primeira reacção não é despedir centenas ou milhares
de trabalhadores deixando-os à mercê da sociedade. A razão para isto prende-se
principalmente com a cultura e os valores tradicionais asiáticos. Nas culturas asiáticas não é socialmente aceitável
que se façam despedimentos em massa e isto tem contrapartidas muito positivas
para a economia dos respectivos países.
Em
épocas de crise económica na Ásia, as empresas e os governos unem-se para
encontrar toda a espécie de esquemas para manter os seus trabalhadores activos
e não ter de haver despedimentos. Mais pessoas a trabalhar, significa mais
pessoas a gastar dinheiro e isto é um contrabalanço muito positivo e
extraordinário em qualquer crise económica.
A longo prazo, as empresas
asiáticas ao demonstrarem mais lealdade para com os seus trabalhadores, recebem
esta lealdade em troca e o empenho e a dedicação dos trabalhadores asiáticos é por
isso mesmo incomparável. Acaba muitas vezes por existir uma verdadeira relação de respeito entre o trabalhador e a empresa e
isto é uma vantagem inigualável num mundo em convulsão económica.
No
Ocidente a busca selvagem por lucro criou um clima nefasto na maior parte das empresas
em que o trabalhador se vê a si próprio muitas vezes como uma mera peça ao
serviço de um burguês e isto é fruto da falta de respeito das empresas
ocidentais para com os seus trabalhadores. Se o Ocidente quiser ultrapassar a
sua doença económica, então terá de repensar a forma como trata aqueles que
trabalham.
Se um típico empresário ou banqueiro ocidental não possuir um mínimo de ética e moral, como se poderá esperar que a sua empresa ou banco dê um contributo minimamente positivo para a sociedade? A crise de valores pela qual passa o Ocidente parece cada vez mais ser um dos principais motivos que explicam a actual crise económico-social em que estamos mergulhados...
Muitos
trabalhadores no ocidente estão desejosos de acabar o seu turno e ir
para casa, ao invés, na Ásia, muitos trabalhadores dedicam-se ao máximo
às suas empresas e fazem muitas vezes horas extraordinárias porque eles
sabem que em momentos de maior dificuldade a sua empresa não os
abandonará. Há uma relação de interesse mútuo muito forte na Ásia entre o
trabalhador e a empresa, algo que não existe no Ocidente.
Outras
lições importantes que o Ocidente pode aprender com o “capitalismo asiático” são as formas como os governos podem sustentar o crescimento económico. É necessário
que, tal como na Ásia, os governos ocidentais invistam mais em infra-estruturas
adequadas e na educação. Nos últimos anos os governos asiáticos têm-se
concentrado muito em melhorar os seus sistemas educativos, as estradas
e os aeroportos.
. Porém, subsiste o problema da educação.
Acima
de tudo e tal como o professor Mahbubani destaca, é necessário que os governos
ocidentais saibam colocar em primeiro lugar o pragmatismo e a resolução de
problemas, depois é que poderá vir a ideologia. Esta sim é a maior lição que o “capitalismo
asiático” tem para nos oferecer.
É bem possível que o
segredo da salvação das economias ocidentais esteja na Ásia e nós ocidentais só
temos a ganhar em olhar para Oriente e aprender com o melhor que se faz por lá.
A prosperidade economico-social que muitos países asiáticos começaram recentemente a descobrir é o fruto de décadas de um trabalho e esforço verdadeiramente titânicos para poder "apanhar" e ultrapassar o Ocidente.
Não restam dúvidas de que a preservação dos valores tradicionais nos países asiáticos tem muito a ver com o sucesso económico desses mesmos países e o Ocidente não poderá recuperar económicamente enquanto não perceber que a recuperação da sua ética e moral perdidas são uma peça essencial para garantir o seu bem-estar económico futuro.
Já é tarde para que o Ocidente possa recuperar e os danos provocados no tecido social, moral e ético do Ocidente pelas ideologias materialistas do século XX são demasiados para serem corrigidos em pouco tempo. Caso o Ocidente queira fazer uma recuperação económico-social, essa mesma recuperação exigirá uma total reconversão das sociedades ocidentais, em todos os domínios e levará no mínimo três décadas para atingir resultados significativos.
Notas: