quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Reflexões Sobre a Religião - Parte II

A Deusa Gaia numa representação artística contemporânea. Com o advento do movimento New Age nas décadas de 1960 e 1970, a Deusa Gaia tornou-se muito popular em vários círculos de estudos metafísicos e espiritualistas, onde a mesma é simplesmente conhecida como a "Mãe-Natureza".


«E se Maria for outro nome para Gaia? Nesse caso a sua virgindade perpétua não é nenhum milagre, mas o papel de Gaia desde que há vida na terra. Ela pertence a este Universo e é, concebivelmente, uma parte de Deus. Na Terra, ela é a fonte da vida eterna e está viva agora; ela deu à luz a Humanidade e nós somos parte dela.» - Sir James Lovelock, The Ages of Gaia, 1988

Aproveitei as horas que tive de passar sentado, por ocasião de uma viagem que fiz há alguns dias atrás, para devorar a última edição da Visão História, totalmente dedicada ao centenário das Aparições de Fátima. No essencial, gostei do que li. Sempre gostei de ler e estudar sobre fenómenos religiosos e sobrenaturais. Tanto que assim é, que quando andava na Faculdade ainda a tirar a Licenciatura, nem hesitei em inscrever-me na cadeira de Filosofia da Religião, que julgo continuar a ser regida pelo professor Anselmo Borges, pessoa por quem tenho larga estima, apesar das grandes divergências ideológicas que nos separam.

O culto à Virgem Maria - o culto Mariano (Hiperdulia) - acaba por ser quase uma religião só por si própria, tal é o fervor e direi até mesmo o fanatismo religioso, demonstrado por alguns dos fiéis que chegam a fazer quilómetros de joelhos só para chegar a Fátima. No entanto, são muito poucos os cristãos e fiéis do fenómeno sobrenatural de Fátima, que conhecem a verdadeira origem do Culto Mariano, que mais não é do que uma reinterpretação e readaptação do culto à Deusa Gaia - a "Grande Mãe" na antiga mitologia greco-romana. Aliás, em Itália, onde ainda existem fortes resquícios da antiga religião nacional latina, existe até um templo dedicado ao culto da Deusa Gaia, que se chama precisamente o Templo da Grande Mãe Gaia.

Todo o fenómeno de Fátima e restantes cultos relacionados com a Virgem Maria e suas aparições, apresentam profundas marcas de culto a uma "Deusa-Mãe", que numa linha de investigação histórico-mitológica, nos acaba por conduzir inevitavelmente até à Deusa Gaia, esta sim, a verdadeira origem do fenómeno. No entanto, podemos ainda recuar mais no tempo e ir até à pré-história, época esta onde já se praticava o culto a uma "Mãe-Terra", "Deusa-Mãe", ou "Deusa da Fertilidade" da qual a Vénus de Willendorf será um excelente exemplo.[1]

A Deusa Gaia, segundo a própria mitologia grega, era conhecida por "trazer a Ordem a partir do Caos" e não deixa de ser curioso como as aparições marianas que têm ocorrido um pouco por todo o Mundo, praticamente desde a fundação do Cristianismo, ocorrem muitas vezes em períodos de conturbada crise sócio-económica. É nestas situações que normalmente ocorrem aparições marianas e a Virgem Maria, tal e qual a Deusa Gaia, promete ou dá indícios a quem a vê, de que a Ordem será em breve reposta e o mal afastado. A extracção da Ordem a partir do Caos, são atributos comuns, tanto à Deusa Gaia, como à Virgem Maria. Da mesma forma que ambas as figuras mitológicas têm igualmente em comum a alegada capacidade de se reproduzirem sozinhas. Assim, à semelhança da Virgem Maria que segundo a mitologia cristã, terá gerado Jesus enquanto manteve o seu estatuto de "virgem". Também a Deusa Gaia possuía a capacidade de gerar descendência sozinha e assim ela deu à luz Urano (o céu), Ponto (o mar) e as Óreas (as montanhas).

Uma vez que tudo aponta para que a Virgem Maria mais não seja do que uma adaptação judaica da Deusa Gaia que era, diga-se de passagem, uma das mais queridas e respeitadas deusas do panteão helénico, torna-se legítimo perguntar o que é que afinal viram aquelas três crianças e todo aquele povo que à época jurou ter visto "o Sol a bailar" em Fátima?

Como eu não acredito no Cristianismo, pois tal religião mais não é do que uma fabricação de judeus[2], sou obrigado a crer que o povo e aquelas três crianças no longínquo ano de 1917, se realmente viram algo de sobrenatural, o que viram não foi a Virgem Maria, mas alguma outra força sobrenatural. A prova de que alguém está a mentir nesta história das "aparições de Fátima", é que tanto quanto as próprias crianças afirmaram, a Virgem terá prometido na sua última aparição a 13 de Outubro de 1917, que a Primeira Grande Guerra acabaria naquele próprio dia. Ora, como está bem registado nos anais da história, a Primeira Guerra Mundial apenas terminou em Novembro de 1918, ou seja, mais de um ano depois da suposta promessa da Virgem...

Na minha opinião e que fique claro que a minha opinião é a minha opinião - só acredita quem quiser - o que se passou em Fátima em 1917 só tem duas explicações possíveis: ou as crianças realmente viram e entraram em contacto com alguma força sobrenatural, sendo que a Igreja não tardou a aproveitar-se da situação e rapidamente alegou que a "senhora branca" que os miúdos viram, era a Virgem Maria. Ou então, tudo não passou de um teatro religioso orquestrado pelo então Cónego Formigão, figura sobre a qual caiem mais do que muitas suspeitas...

A antiga mitologia grega era superior ao Cristianismo no que diz respeito à compreensão e explicação dos mistérios do Universo. Por exemplo, a ciência oferece como explicação para a origem do Universo a teoria do Big Bang, que em boa verdade, levanta muito mais perguntas do que respostas. Ora, enquanto que o Cristianismo oferece para a origem do Universo e do Mundo uma explicação que mais parece ter sido tirada de um conto infantil, a antiga mitologia grega ensina-nos que no princípio dos tempos, surge Caos (Big Bang) e que foi a partir de Caos que nasceram a Deusa Gaia (Terra), Tártaro (o Abismo), Eros (o Amor), Érebo (a Escuridão) e a Deusa Nix (a Noite). Esta é, sinteticamente, a explicação que a mitologia grega nos dá para a origem do Universo. 

Agora comparemos isto com a explicação que a ciência nos dá. 

Dizem-nos os físicos que estudam a origem do Universo, que o mesmo se iniciou com o Big Bang e que foi a partir desta violenta expansão de matéria, que se originou tudo o que existe hoje no Universo. Esta, metafóricamente, é exactamente a mesma explicação que a mitologia grega nos dá para a origem do Universo. Vejamos: o "Caos" de que falavam os antigos gregos, é nada mais, nada menos, do que uma metáfora religiosa para o Big Bang, sendo que se trata de uma metáfora que se aproxima muito da realidade científica, tal como ela é entendida hoje pela própria comunidade da física que se dedica ao estudo e entendimento do Universo. «O poeta romano Ovídio foi o primeiro a atribuir a noção de desordem e confusão à divindade Caos. Todavia, Caos seria para os gregos o contrário de Eros. Tanto Caos como os seus irmãos são forças geradoras do universo. Caos parece ser uma força catabólica, que gera por meio da cisão, assim como os organismos mais primitivos estudados pela biologia, enquanto Eros é uma força de junção e união. Caos significa algo como "corte", "rachadura", "cisão" ou ainda "separação".»

Este Caos, no entendimento da mitologia helénica, é uma antiga força obscura e andrógina, que manifesta a sua vida por meio da fissão dos elementos. Fica assim claro que a fissão nuclear, um conceito que a física moderna só há relativamente poucas décadas atrás conseguiu verdadeiramente entender e dominar por completo, era algo sobre o qual os antigos gregos já tinham uma vaga noção teórica. Eros, por sua vez, simboliza a fusão nuclear. Juntos, Caos e Eros, representam as forças atómicas que continuamente moldam e transformam o Universo, nomeadamente, a fissão nuclear e a fusão nuclear. O mais incrível de tudo isto é que os antigos gregos não só entenderam o papel destas forças atómicas para a formação do Universo, como ainda a tornaram uma parte integrante da sua mitologia religiosa!

Impõe-se por isso fazer aqui uma pausa e perguntar como é que foi possível estes homens que viveram há milhares de anos, entenderem com tal precisão as forças atómicas que geraram o Universo e simultaneamente darem uma explicação para a formação do mesmo, que se assemelha de forma tão gritante à moderna teoria do Big Bang?!

É verdadeiramente incrível a forma como a epopeia da criação do Universo na antiga mitologia grega, se aproxima tanto da actual teoria cientifica. Mais incrível ainda, é os gregos terem descoberto isto numa época em que não havia quaisquer instrumentos científicos avançados. Sei bem que aqui entramos no domínio da especulação fantástica, mas não deixa de ser legítimo perguntar se os antigos gregos não terão porventura sido contactados por alguma força obscura vinda sabe-se lá de onde, que lhes transmitiu estes dados? É que a mitologia, neste caso, aproxima-se mesmo muito da realidade científica e nestas coisas, eu pessoalmente tenho uma extrema dificuldade em acreditar em "meras coincidências"...

Trata-se de um facto científico comummente aceite que a nossa galáxia e o sistema solar se formaram a partir da matéria resultante do Big Bang. Mais uma vez, a mitologia grega está em linha com a teoria científica quando afirma que a Deusa Gaia, isto é, a Terra, se formou a partir da explosão do Big Bang, ou seja, a partir de Caos. Este mesmo Caos resultou também no nascimento do Deus Érebo, que é na mitologia grega a personificação da escuridão, do desconhecido, em última análise, do vácuo infinito do Universo. A Deusa Nix, que personifica a noite, é a irmã de Érebo e juntos estes são os mais velhos imortais do Universo.

Quem observar as fotografias do sistema solar que temos hoje ao nosso dispor graças à ciência moderna, mais uma vez, pode confirmar como os gregos acertaram em cheio na sua concepção do Universo que é, de facto, um "vácuo infinito" e um lugar onde reina a tal "noite" da Deusa Nix, a que a física hoje chama de matéria escura e energia escura. Juntas, a energia escura e a matéria escura, compõem 95,1% do conteúdo total de massa-energia do Universo. Não é portanto ao acaso que a mitologia helénica escolheu os deuses que personificam o vácuo infinito e a noite, para serem os mais antigos imortais do Universo e os descendentes directos de Caos (Big Bang). É que como a está demonstrado, o Universo é realmente composto maioritariamente por um vácuo onde reina a escuridão e a noite perpétua na forma física da matéria escura e da energia escura. Tenha-se atenção que esta escuridão não simboliza qualquer mal, mas sim, o mistério infinito do Universo.

Não existe no Cristianismo ou em qualquer uma das outras mitologias semitas (Judaísmo e Islão), uma explicação para a origem do Universo que se aproxime tanto da verdade científica, como a que existe na antiga religião helénica. Penso que o que eu expus acima, demonstra isto na perfeição.

A grave crise identitária e civilizacional de que a Europa hoje sofre, é em grande medida, uma crise espiritual e que resulta a meu ver, do Cristianismo não ser compatível com uma sociedade evoluída do ponto de vista técnico-científico. Não é por isso mera coincidência o facto os europeus terem começado gradualmente a perder a sua fé em Cristo, na justa proporção dos rápidos avanços técnicos que se têm verificado desde o início da Revolução Industrial. Ciência e Cristianismo não casam. São duas forças que se excluem mutuamente. Não acredito por isso que haja qualquer hipótese de os europeus voltarem à Igreja. O Cristianismo como força motriz da cultura e da sociedade europeia, está acabado na Europa Ocidental e em larga medida, também nos Estados Unidos. 

Acredito, no entanto, que é necessário que se resolva rápida e urgentemente esta crise espiritual que vivemos no Ocidente e que podendo não parecer, é a mais grave de todas as questões que hoje assombram a nossa Civilização. Tomem nota de que não há Civilização sem religião. Se o homem europeu e ocidental não voltar a reencontrar o seu caminho espiritual, podem ter a certeza de que tudo irá pelo cano abaixo. Tudo mesmo. Disto não tenho a mais pequena dúvida. 

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Notas: 
[1]  A Vénus de Willendorf, encontrada em 1908 na Áustria, constitui uma das mais antigas provas materiais que existem sobre um provável culto a uma "Deusa-Mãe" ou "Deusa da Fertilidade" na pré-história. A pequena estatueta, terá sido talhada por volta de 28,000 - 25,000 a.C.
[2] Jesus era um judeu, os seus apóstolos eram também quase todos judeus, a Bíblia mais não é do que uma colectânea de estórias e tradições judaicas e para cúmulo, o Deus em que acreditam os cristãos, é o "Deus único" que foi inventado pelo judeus. Perante tudo isto, perante todos estes factos provados e demonstrados, como é que alguém com o mínimo de bom senso pode ainda dizer que o Cristianismo não é um Neo-Judaísmo?
 
João José Horta Nobre
15 de Fevereiro de 2017

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